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sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Nome do Senhor (YHWH)

CARTA SOBRE O TETRAGRAMA A UMA TESTEMUNHA DE JEOVÁ


São José dos Campos, 1 de abril de 2011.


Dulce, Paz e saúde!


Eu li aquela revista Sentinela que versa sobre o nome de Deus. Gostaria de tecer breves ponderações acerca daquela matéria. Concordo que Deus tem um nome específico e mui sagrado pelo qual se revelou ao povo de Israel. A propósito, o terceiro mandamento dos dez mandamentos era: “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão porque o Senhor Deus não terá por inocente quem tomar o seu nome em vão” (Ex 20.7).

O nome sagrado de Deus no AT era יהוה , cuja transliteração é YHWH, conhecido como o tetragrama. Deus revelou esse nome a Moisés naquele episódio da sarça ardente, conquanto esse nome já tivesse sido utilizado em passagens anteriores (Gn 12.8 e 15.2), mas somente mais tarde o sentido desse nome foi revelado (Ex 6.3).

Observe que o nome já era conhecido, todavia, o sentido do nome ainda não tinha sido revelado. Em Ex 3, o anjo do Senhor apareceu a Moisés em uma chama de fogo do meio duma sarça ardente. Havia fogo na sarça, contudo a sarça não se queimava. Tal visão miraculosa chamou a atenção de Moisés, principalmente pelo fato de que o fogo não consumia a sarça. Inicialmente Deus se revela a Moisés como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, ascendentes de Moisés, chamados de patriarcas. O Senhor afirmou que a promessa feita aos ascendentes de Moisés se cumpriria.

Essa promessa consistia em dar uma terra boa que mana leite e mel aos descendentes dos patriarcas. E Moisés recebeu a incumbência de dar cabo a essa missão, de sorte que deveria ir até Faraó e tirar o povo do Egito. Então, Moisés faz a primeira pergunta a Deus: “quem sou eu para ir a Faraó e tirar os filhos de Israel do Egito?” Essa primeira pergunta de Moisés denota sua preocupação com Faraó e o Egito. Quem seria ele para enfrentar o poderoso Faraó e libertar o povo de Israel daquela poderosa nação, a maior potência do mundo, sendo talvez igualada apenas pelos hititas. Deus simplesmente responde que Ele irá com Moisés. A presença de Deus é o suficiente para eliminar qualquer sentimento de impotência ou inaptidão. A presença de Deus basta e deve por fim a qualquer dúvida de Moisés. A segunda pergunta de Moisés a Deus é: “Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: qual é o seu nome? Que lhes direi?”

A primeira pergunta referia-se ao próprio Moisés. Que era Moisés, e sua preocupação era com Faraó e o Egito. Agora sua pergunta é direcionada ao próprio Deus. Qual é o nome desse Deus? E a preocupação de Moisés é com os filhos de Israel. Moisés estava com receio de que o povo colocasse em xeque aquela incumbência recebida de Deus. Quem era esse Deus que comissionou a Moisés? Qual era o seu nome? Moisés queria uma mensagem nova, uma revelação maior, mais esclarecimentos, mais conhecimento acerca do Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Aos patriarcas, o próprio Deus havia falado que era o Deus deles e feito promessas por meio de aliança. A Moisés, contudo, não havia ainda nenhuma revelação, de modo que ele era apenas o beneficiário das promessas, ou seja, não era parte de uma aliança ou nova promessa. Assim sendo, o diálogo revela que Moisés queria saber muito mais que o mero e literal nome do Senhor. Moisés queria uma revelação especial e exclusiva que os patriarcas não tiveram, de modo que essa revelação o autorizaria e dar-lhe-ia autoridade para falar em nome desse Deus. Porque mais de 400 anos já se passaram sem que nenhuma outra pessoa avocasse alguma revelação semelhante à dos patriarcas. A pergunta de Moisés pelo nome de Deus mostra que ele queria ter mais intimidade com o Senhor, e que essa intimidade autenticaria sua mensagem.

E realmente conhecer o nome de Deus daria a Moisés um conhecimento novo e singular do Senhor, que ninguém anteriormente tinha, de modo que esse conhecimento novo habilitaria Moisés a agir e falar em nome do Senhor. Jacó já havia perguntado ao anjo do Senhor ou ao próprio Deus o nome dele no vau de Jaboque. Mas recebeu a bênção e não a resposta. A resposta de Deus a Moisés concederia um privilégio que Jacó não teve. E Deus concede a Moisés um pouco mais de revelação acerca de sua pessoa. A resposta de Deus não é: “o meu nome é...”. Porquanto Moisés não queria saber o nome literal de Deus. Temos de ler essa passagem tendo em mente e atentando para o significado desse diálogo para aquela época. A pergunta “qual é o seu nome” feita no século XV a.C não é a mesma do século XX d.C.

Naquela época conhecer o nome de alguém não consistia saber apenas a alcunha, cognome ou patronímico pelo qual alguém é chamado e conhecido perante a sociedade. Significava conhecer o caráter, o mister, o contexto familiar, social ou religioso de alguém. Ou seja, o nome revelava algo sobre a pessoa, e não era usado apenas para se referir a alguém. Prova disso era que frequentemente alguém mudava de nome em função da mudança de alguma situação relevante. Poderia citar inúmeros exemplos agora para serem posteriormente analisados: Abrão e Abraão, Jacó e Israel, Moisés, Gideão e Jerubaal, Jesus Cristo e Emanuel, etc.

Dessa forma, a resposta de Deus é: “Eu sou o que sou”. E Depois acrescenta: “Assim dirás aos filhos de Israel: Eu sou me enviou a vós”. A primeira parte da resposta de Deus em hebraico é אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה , cuja transliteração é ‘eheye asher ‘eheye. Essa assertiva pode ser traduzida assim: Eu sou o que sou; Eu serei o que serei; Eu estou presente é o que eu sou. O hebraico é semelhante ao inglês em que a expressão I am tanto pode ser traduzida como Eu sou ou Eu estou. Nessa primeira parte Deus mostra sua auto-suficiência, independência plena, auto-existência, com também revela sua presença n meio de seu povo. Uma resposta conclusiva acerca da eternidade, divindade, e imutabilidade de Deus, bem como de sua imanência e envolvimento com seu povo. Antes dele ser adorado por alguém ou associado a alguém, ele declara sua existência independente de qualquer pessoa. Ele declara sua origem eterna. Ele não é de ninguém, como os deuses egípcios e pagãos eram possuídos. Ele não nasceu de ninguém, como os deuses pagãos nasciam. Ele não está ausente ou distante do povo. Ele não abandonou o povo. Enfim, Ele É o que É, ou Ele é e está! A segunda parte da resposta de Deus a Moisés afirma que esse Deus, revelado de forma original e exclusiva a Moisés, o Eu Sou, enviou a Moisés, e que ele deveria dizer somente isto: O Eu Sou me enviou a vós. Era o suficiente, e bastava. Essa nova revelação acerca de Deus realmente qualificou Moisés para transmitir um conhecimento maior acerca do caráter desse Deus. Moisés recebeu a Lei do Senhor, que mostrava toda santidade, pureza, justiça, e retidão desse Deus.

Com vistas a relembrar todo esse peso revelacional, esse conhecimento novo e glorioso acerca do Senhor, Deus inclui uma nova forma de se referir a Ele. Surge então a expressão: אֶהְיֶה , que é traduzido por Eu sou. Observe que essa expressão ainda está associada com os patriarcas. De modo que YHWH era o mesmo Deus dos pais de Moisés, Abraão, Isaque e Jacó. De modo que, mesmo não havendo conhecimento do conteúdo revelacional inerente a esse nome, já havia menção desse nome na era patriarcal. Portanto, constatamos que esse nome do Senhor tem um vínculo estreito com as alianças estabelecidas com os patriarcas e com Moisés. No tocante à pronúncia desse novo nome, não é possível determinar com precisão qual é. É consabido que o hebraico possuía somente consoantes, e que a vocalização fazia parte da tradição. O povo de Israel perdeu a pronúncia correta, por excessivo temor de pronunciar o sagrado nome do Senhor em vão. No entanto, os judeus sempre primaram pela leitura pública e em voz alta das Escrituras. E agora, como ler e pronunciar o nome do Senhor? À medida que a pronúncia se perdia, o nome do Senhor era substituído pelo hebraico Adonai, que significa Senhor. Por sua vez, os massoretas, um grupo de escribas judeus, objetivando preservar a leitura da Bíblia Hebraica, resolveram criar vogais em forma de pontinhos e tracinhos sobrescritos e subscritos entre as consoantes a fim de que a leitura não fosse afetada, porquanto havia o risco de se esquecer a maneira de pronunciar as palavras hebraicas, o que obliteraria a leitura pública e em voz alta do texto hebraico. Ao lerem o nome de Deus, os judeus falavam em voz alta a palavra Adonai. Assim, os massoretas incluíram as vogais da palavra hebraica Adonai no nome de Deus, de modo que o leitor lembrasse que deveria pronunciar Adonai. Os tradutores das Escrituras Sagradas Hebraicas seguiram essa tradição, de sorte que traduziam o tetragrama por Senhor (e.g. LXX usou Kyrious, e a Vulgata Dominus). Entretanto, tradutores desavisados não seguiram as regras dos massoretas e leram as vogais junto com as consoantes do nome do Senhor, o que culminou na pronúncia equivocada do YHWH como Jeová.

Essa pronúncia, por conseguinte, decorreu de um equívoco de tradução. Aparece pela primeira vez em 1901 na ASV (american standar version). Antes disso não havia essa pronúncia equivocada. Jerônimo, o tradutor da Vulgata, não inclui a transliteração do nome em sua tradução, mas menciona-o em um de seus escritos, sem, contudo, a vocalização do nome. Apenas menciona que o nome do Senhor é Jah, e o tetragrama é JHVH.

Outro fator que corrobora isso é a inexistência absoluta da palavra Jeová no NT. A propósito, o NT não menciona uma única vez o nome de Deus. Não é crível, plausível e admissível que tenha havido corrupção nos manuscritos, uma vez que são mais de 5000! E nenhunzinho traz a expressão, quer transliterada, quer vocalizada! Pelo contrário, o texto grego substituiu o nome hebraico de Deus pela expressão grega Senhor equivalente ao Adonai em hebraico. A tese de que houve corrupção nos manuscritos gregos é infundada, pueril, e ainda abre um perigosíssimo precedente, qual seja, se houve corrupção nesse item, quem garantirá que não houve em outro? Se abrir a porteira, a boiada passará...

Por que Deus permitiu isso?

O Senhor Deus de Abraão, Isaque e Jacó, agora se revelou de uma maneira especialíssima, inigualável, singular: Pai, o Pai de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O Senhor Jesus Cristo ensinou-nos a chamar a Deus de Pai e não de YHWH. As cartas apostólicas, principalmente as introduções paulinas, introduzem essa nova revelação de Deus como Pai. Portanto, agora chamamos a Deus de Pai. Como infantes que não sabem o nome completo de seu pai, mas sabem clamar papai, nós clamamos Aba Pai. O Espírito Santo que habita em nós ensina-nos a chamá-lo Aba Pai. Na nova aliança há uma maneira mais íntima e próxima de se referir a Deus. Quando Jesus Cristo voltar saberemos como era pronunciado esse nome, e Ap 3.12 e 19.12 podem aludir a isso. Como Deus ocultou a arca da Aliança para trazê-la novamente, o nome de Deus será redescoberto na próxima vinda de Cristo. Hoje basta-nos chamar-lhe de Pai nosso que está nos céus...


Saudações.


Tales Alves Paranahiba

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Elias e a viúva de Sarepta

Elias e a viúva de Sarepta

No século IX a.C o profeta Elias surge como um anônimo, sem lastro familiar, social e político. Não há menção a seus ascendentes, o que não é comum em Israel. É um tisbita, natural de Tisbé, cidade inexpressiva e desconhecida atualmente localizada na região da Transjordânia, que pertencia à região de Gileade situada entre as tribos da Transjordânia – Rúbem, Manassés e Gade.
A nação de Israel – composta por dez tribos do Norte – atravessava um período de prosperidade e crescimento econômico. Onri (880-873 a.C), pai de Acabe, fundou Samaria como capital do reino do Norte. Livrou a nação da instabilidade política marcada por conspirações, chacinas e suicídio. Em menos de três anos houve dois reis (Elá e Zinri) e uma divisão interna em que parte de Israel era governado por Onri e outra parte por Tibni.
Há relevantes fontes extra-bíblicas que, além de corroborar a veracidade histórica do reinado de Onri, certificam que seu governo teve repercussões internacionais. Descobertas arqueológicas impingem que Onri foi um rei bem-sucedido, cuja fama reverberou na Mesopotâmia. Uma inscrição gravada na Pedra Moabita (c. 830 a.C) registra que “Onri era rei de Israel e oprimiu Moabe por muitos dias”. Mais tarde, inscrições assírias datadas de mais de cem anos após a morte de Onri mencionam-no. Por exemplo, quando Jeú pagou tributo ao rei Samaneser III (859-824 a.C), sendo tal fato gravado no Obelisco Negro, há o seguinte registro: “Jeú, filho de Onri”.
Por outro vértice, enquanto Onri era o ícone internacional de Israel, também não deixava de ser o novo ícone da idolatria, sobrepujando o precursor do culto idólatra, a saber, Jeroboão, que criou uma nova religião e construiu imagens e altares dedicados ao culto idólatra e sincretista (1Re 16.25; 12.26-33).
Assim sendo, não obstante a prosperidade econômica e política, Israel continuava atolada no lamaçal da idolatria, de forma que o estado espiritual da nação era miserável, abominável e deplorável. Os adoradores do Deus invisível e glorioso que não havia se revelado em figura ou forma alguma (Dt 4.15-20) tornaram-se resoluta e acintosamente adoradores de bezerros e imagens humanas esdrúxulas!
Acabe (873-853 a.C), o filho de Onri, sucedeu seu pai, e “fez muito mais para irritar ao Senhor Deus de Israel, de todos os reis de Israel que foram antes dele” (16.33). A começar por seu casamento, contraiu núpcias com uma mulher estrangeira e idólatra, a famigerada Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios, com vistas a estreitar os laços com os fenícios. Por conseguinte, Acabe tornou-se adorador devoto de Baal, o deus cananita.
Há uma imagem que retrata Baal com um machado e um raio na mão. Outra escultura mostra-o com uma espada e escudo. As imagens de Baal mostram-no como um homem guerreiro, controlador do tempo, contudo, tem uma feição medonha, asquerosa e macabra.
Baal, cujo significado é senhor, possuidor ou marido, é o grande deus dos cananeus relacionado à fertilidade e à chuva. Sua esposa era Astarote. Aserá era consorte de El, o deus-mor do panteão cananeu, sendo intitulada “a senhora que anda sobre o mar” e “usufrui o título de qaniyatu elima “progenitora (ou criadora) dos deuses. O seu filho mais famoso era Baal” .
Os cultos cananeus eram caracterizados pela ubiqüidade dos altos e promiscuidade. Os outeiros eram os locais apropriados para a adoração. Cada outeiro poderia se tornar num local de adoração a Baal. Nos cultos havia muita orgia. Era uma forma de representar o relacionamento sexual dos deuses, com o objetivo de alcançar a fertilidade da terra e das criações.
Nesse contexto tenebroso, miserável e abominável aos olhos do nosso Senhor, surge o profeta Elias, cuja primeira atividade profética consistira em predizer uma forte seca. Essa profecia já denotava que seu ministério consistiria em se opor à idolatria e ao baalismo, que era a religião oficial de Israel, e, como o próprio nome diz, cujo principal ídolo era Baal, tendo como devotos o rei Acabe e sua esposa Jezabel. Porquanto, a seca além de castigar o povo de Israel em conformidade com as maldições elencadas em Dt 28.23,24, visava atacar o próprio Baal, que era reputado como controlador do tempo e deus da fertilidade.
Assim sendo, o início do ministério de Elias revela seu precípuo mister consistente em desafiar e derrotar Baal e seus adoradores. Não era uma tarefa fácil, pelo contrário, sua vida corria perigo, seu cargo estava em extinção, pelo que Jezabel havia destruído os profetas do Senhor. Para manterem-se vivos, os profetas do Senhor tinham de esconderem-se. Por exemplo, Obadias, mordomo de Acabe, escondeu cem profetas do Senhor, sustentando-os com pão e água.
Com efeito, o zênite do ministério de Elias é a clássica luta contra os profetas de Baal (18.17-40). Para chegar lá Elias deveria ser preparado por Deus. Enfrentar a idolatria, o próprio rei Acabe e a sanguinária e adoradora de Baal Jezabel demandariam assaz preparo.
Após a intensificação da seca que culminou com o desaparecimento do ribeiro onde Elias era alimentado miraculosamente pelo Senhor, Deus manda novamente Elias ir a Sarepta, onde lhe seria proporcionado experiências significativas com o Senhor, que capacitá-lo-ia para o grande confronto.
Elias recebera duas ordens inexoráveis e desafiadoras (17.3,9) que manifestavam o controle absoluto e soberano do Senhor. Na primeira, Deus ordenou aos corvos que sustentassem-no. Na segunda, Deus ordenou uma viúva que sustentassem-no. Em ambas, Deus mandou Elias ir a lugares reservados: ribeiro junto ao Jordão e casa de uma viúva em uma cidade sem muita expressão.
Essas duas ordens conexas demandaram muita fé e confiança de Elias. À medida que Elias agisse segundo a palavra do Senhor, Deus cumpria sua promessa, sustentando-o .
O sustento de Elias pelos corvos já era uma demonstração clara e inequívoca de que o Senhor sustentaria Elias. A imunda Jezabel sustentava os profetas de Baal, sendo pior que os imundos corvos (Lv 11.15), pois estes, embora fossem imundos, eram mais nobres que aquela, pois sustentavam um profeta de Deus. É como se Deus dissesse-lhe: “Elias, seu ministério é árduo, sua função está em extinção, perante os homens você não conseguirá cumprir essa nobre missão. Todavia, eu, o Senhor seu Deus, perante cuja face você está, te sustento e te guardo. O teu sustento vem de mim e não de homens. Por isso, não temas, fala e não te cales!”
Ainda assim, Elias necessitava de mais experiências com o Senhor a fim de consolidar sua fé e prepará-lo para o grande desafio contra os profetas de Baal. De forma que estas serão gozadas em Sarepta.
Sarepta era uma cidade fenícia, que pertencia a Sidom, distando cerca de 13 km dessa famosa cidade, ficava numa região que era considerada localidade de Baal. A propósito, Jezabel era de Sidom.
A ida a Sarepta era uma prova de fé. Elias teria de caminhar cerca de 160 km. Outrossim, a fome assolava aquela região. A propósito, Flávio Josefo cita que a fome levou o rei de Tiro a estabelecer que se fizesse orações . Viúvas geralmente precisavam ser sustentadas (Dt 14.28,29; 24.19-22), de forma que dificilmente teriam condições de sustentar a si e seus órfãos, muito menos conseguiriam sustentar outros.
Mas Elias não hesitou. Confiou no Senhor. E Deus o sustentou miraculosamente naquele lugar. Em Israel, Jezabel sustentava seus profetas. Mas, próximo à cidade natal dela, o Rei de Israel, YHWH, sustentava seu profeta por meio de uma mulher, viúva, pobre, mas rica em fé.
Champlim assevera que “através da maneira incomum de nutrir fisicamente o profeta, Deus também estava nutrindo a fé de Elias, para feitos posteriores de força espiritual.”
A ida a Sarepta tinha propósitos específicos. Naquela época estava impregnada na mente do povo a crença de que a influência dos deuses limitava-se a circunscrições territoriais. Em virtude dessa heresia, Deus tencionou demonstrar que seu poder e soberania não estão adstritos exclusivamente a um determinado território. Pelo contrário, até em território “alheio pertencente a outro deus” ele tem poder e autoridade. Ah, se a nação de Israel reconhecesse isso! (Sl 81.13-16; Is 48.18-19). Em Sarepta, o Senhor preservou Elias dos riscos de perseguição e atentado perpetrados por Jezabel.
Além dessa edificante experiência, o Senhor ainda reservava para Elias mais uma singular e rara experiência, a saber, a de ressuscitar o filho daquela viúva. Até aquele dia não havia nenhum relato bíblico de que um morto tinha ressuscitado. A oração de Elias para que o filho da viúva ressuscitasse revelava que ele estava absorto pela fé em Deus; com efeito, estava na trilha de seu pai Abraão, o qual creu que Deus poderia ressuscitar seu filho Isaque.
Por conseguinte, em Sarepta, Elias teve mais duas experiências sobrenaturais que caracterizavam o cuidado do Senhor por Elias e o poder e a soberania de Deus. Elias orou pela ressurreição do menino, e Deus atendeu. Em Sarepta a fé de Elias foi fortalecida e consolidada. Agora sim, o profeta estava preparado para se apresentar a Acabe e Jezabel para aquele grande confronto. E Elias assim fez, foi a Acabe com destemor, ousadia, intrepidez, desafiando os ídolos de Acabe e Jezabel.
Em Sarepta Deus provou a fé de Elias e o fortaleceu. De sorte que não havia motivos para temer Jezabel e Acabe. Agora sim o profeta estava preparado para o grande desafio e confronto com os falsos profetas de Baal.
No entanto, alguns detalhes dessa narrativa publicam a vergonhosa decadência espiritual de Israel, e visam causar emulação em Israel.
Uma viúva pobre e estrangeira teve fé na palavra do profeta Elias, de modo que foi usada por Deus para sustentar o profeta. Nesse ínterim, em Israel, a rainha Jezabel sustentava os profetas de Baal (18.19). Aqueles a quem a palavra fora revelada, a quem pertenciam as promessas, as alianças e os oráculos, não sustentavam o profeta, pelo contrário, além de sustentar falsos profetas, perseguia os verdadeiros profetas.
Por outro vértice, uma viúva estrangeira reconhece a autoridade do profeta, bem como de sua palavra, sendo oriunda do próprio YHWH. Depreende-se inelutavelmente que a fé daquela viúva era incomparável em relação a Acabe e Jezabel.
Próximo da cidade natal de Jezabel, de onde se esperava mais uma adoradora de Baal, Elias se depara com uma estrangeira que era viúva e pobre; esta, a seu turno, o reconhece como profeta, crê na sua palavra, e, mesmo equivocadamente, reconhece que o profeta de Deus pode trazer juízo sobre todo pecado, fazendo-o vir à tona. Que exemplo! O que não havia no palácio da capital de Israel, surge na porta de uma cidadezinha desconhecida. O que não havia na classe nobre dos israelitas, surge na classe baixíssima dos sidônios: FÉ!
À medida que Elias e a viúva confiavam na palavra do Senhor, a fome era dava lugar para o mantimento, a morte cedia em favor da vida! Ah, se a nação de Israel reconhecesse isso! (Sl 81.13-16; Is 48.18-19).
Essa narrativa também teve o desiderato imediato e mediato de sustentar e nutrir as convicções javistas dos profetas perseguidos e em extinção de YHWH. Não obstante toda perseguição e hostilidade perpetrada pelo próprio rei de Israel e sua esposa, Deus, o Rei dos reis, é o provedor e mantenedor da escola de profetas, da qual Elias se destacava. A palavra de Deus na boca de Elias foi verdade, e na boca dos profetas do Senhor subseqüentes também serão verdade (18.24)!
Os profetas pós-exílicos também deveriam sempre confiar no Senhor e em Sua palavra, a qual não falha.
Enfim, essa narrativa tem aplicações práticas, servindo especificamente para combater o baalismo, e toda forma de idolatria subsequente, bem como para despertar a fé do povo de Deus em todas as eras.

[]

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Profecia contra irmãos insolentes

Profecia contra irmãos insolentes

Israel teve um irmão, Esaú, também chamado de Edom, que habitou na região montanhosa de Seir.
Durante toda história de Israel, esse irmão foi insolente, porquanto tratava Israel de forma grosseira, proferia injúrias, e objetivava destruir seu irmão.
O profeta Ezequiel inspirado pelo Espírito do SENHOR disse:
“Porquanto guardaste inimizade perpétua, e espalhaste os filhos de Israel pelo poder da espada no tempo da sua calamidade e no tempo da iniquidade final, por isso, vivo eu, diz o Senhor Deus, que te preparei para sangue, e o sangue te perseguirá [...] farei do monte Seir uma extrema desolação [...] Portanto, vivo eu, diz o Senhor Deus, que procederei conforme a tua ira, e conforme a tua inveja, de que usaste, no teu ódio contra eles; e me farei conhecer entre eles, quando te julgar, e saberás que eu, o SENHOR, ouvi todas as tuas blasfêmias que proferiste contra os montes de Israel, dizendo: Já estão assolados, a nós nos são entregues por pasto...” (Ez 35.4,5,6,11,12).
Indubitavelmente, o fim dos irmãos insolentes é trágico, terrível e tenebroso, a menos que se arrependam!
Senhor, perdoa eles, pois não sabem o que fazem e o que dizem.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Contraste e tensão

Contraste e tensão

Nossa sociedade é caracterizada pelo contraste. Ontem assisti um programa televisivo apresentado por Roberto Cabrini, que veiculou uma matéria sobre a precária e desgraçada situação de meninos de rua. Estes vivem piores que bichos e animais. Não contrastarei a situação deles com outros meninos de classe média. Os cães e gatos da classe média vivem melhores que essas criaturas. Em outro programa veiculado na cultura assisti a sórdida discrepância em Brasília. Junto a condomínios de luxo e excelentes construções projetadas pelo famoso arquiteto Oscar Niemair, observava-se favelas adornadas com lixo, miséria e restos dos mais abastados, cujo arquiteto desse monturo também é uma criatura, porém sem a prancheta do famoso projetista.
Enfim, esses contrastes são evidentes e causam muita indignação.
Não obstante, vivemos nesse mundo de contrastes e tensões. É inexorável!
O profeta Ezequiel não deixou de ver o mesmo contraste; com efeito, viu um contraste abissal.
No capítulo 1 de seu livro ele se deparou com uma das mais belas e misteriosas visões elencadas na Bíblia. Viu a glória do Senhor. O Espírito Santo entrou nele. Ele ficou pasmo e deslumbrado com tanta majestade. Os fenômenos são comparados àqueles experimentados por Moisés no sopé do monte Sinai.
No entanto, após poucos dias, mais precisamente 7, aquela visão majestosa, gloriosa, santa do Deus vivo trouxe-lhe uma das piores e mais trágicas profecias da Bíblia, a saber, o cerco de Jerusalém.
Essa profecia versava sobre mortes, carnificina, canibalismo, sofrimentos torturantes, fome, e muito, mas muito sofrimento.
O profeta se identificou com essa mensagem. Fez uma severa dieta com símbolo da fome e sede. Rapou sua barba e cabelo como símbolo da vergonha e humilhação.
O profeta Ezequiel viveu essa tensão entre o divino e o diabólico, o santo e o profano, a majestade e a miséria, a vida e a fome. Sua visão manifestava e transmitia a presença do Deus vivo, da vida, exuberância, beleza, ao passo que sua profecia falava do Destruidor, da morte, abjeção e catástrofe.
Nesse mundo atravessamos esses “dois mundos”. Vemos nosso precioso, majestoso e insigne Senhor Jesus Cristo que ressuscitou dos mortos, após o terceiro dia da sua vergonhosa, dolorosa e infame morte. Cristo Jesus habita em nós pelo Seu Espírito. A glória do Senhor se revela a nós.
Não temos a mesma visão fenomenológica de Ezequiel, mas nossa visão é maior. Contemplamos o Filho unigênito e bendito do Pai que deu sua vida por nós, e manifestou seu amor imensurável, inaudito e indizível por nós. Oh que maravilha! Graças dou a ti Senhor por tanto amor... Que amor me concedeu Jesus, gozo santo e celeste luz... Ninguém jamais me amou assim. Ezequiel não tinha essa revelação.
Não obstante tanto amor e graça, tamanha revelação e manifestação do amor do Papai: Jesus Cristo. Não deixamos de anunciar mensagens trágicas como do lago de fogo e enxofre para os rebeldes e ímpios. Sofremos por causa da incredulidade de nossa sociedade, vizinhos, parentes e familiares. Sofremos com a miséria, morte e destruição das pessoas.
Enfim, vivemos o mesmo contraste.
Por isso, creio que a verdadeira mensagem do Evangelho deve nos aproximar e nos fazer identificar com os miseráveis.
No entanto, Ezequiel profetizou a vinda de um fim, e a vinda de uma restauração miraculosa e gloriosa. E sabemos que esse dia virá. Nesse grande dia não haverá esse contraste. Não teremos mais essa tensão.
Assim sendo, clamamos, para que esse dia de contrastes e tensões chegue ao fim:
Venha Senhor o Teu reino assim na terra como no céu, e faça a Tua vontade.
MARANATA, ORA VEM SENHOR JESUS!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Crítica Textual

Análise Crítica Textual dos primeiros capítulos de Juízes

Consideração sobre a LXX
A LXX tende a discordar mais do TM que outras versões. Antes de descartar incontinenti a fidedignidade da LXX em relação ao TM, creio que é possível que a LXX tenha se baseado num texto cuja tradição não foi preservada pelo TM, mas que poderia fazer parte do original.
Infelizmente, à míngua de outros testemunhos, e para não basear o trabalho crítico em meras inferências, trabalharei com o princípio in dubio pro TM. Porquanto será mais objetivo, salvo raríssimas exceções devidamente fundamentadas.
Assim sendo, à medida que o testemunho da LXX for isolado, preponderará o TM.

Jz. 1.1a
O editor da BHS aponta a existência de um problema crítico no tocante ao nome do falecido. O TM afirma que o falecido é Josué, ao passo que a nota de rodapé da BHS sugere que seja Moisés, visto que em 2.6 Josué ainda estava vivo. Logo, depreende-se, então que Josué não tinha morrido, mas outra pessoa, e esta deve ser Moisés.
No entanto, tal inferência não tem qualquer apoio crítico, visto que nenhum manuscrito ou versão do texto hebraico traz o nome de Moisés como a pessoa falecida.
Destarte, o “problema crítico” não passa de mera inferência do editor, pelo que não há qualquer evidência objetiva em sentido contrário.
O editor evocou um aparente problema interno. À míngua de qualquer prova em contrário, é pertinente harmonizar o texto. E isso pode ser feito inelutavelmente. Basta admitir que não há uma sequência cronológica no capítulo um e dois, mas apenas um propósito, a saber, de demonstrar que as conquistas, mesmo na época de Josué, não foram efetivadas consoante a ordem do Senhor, qual seja, de exterminar todos os habitantes de Canaã, sem fazer qualquer aliança com eles.

Jz 1.10a
Mais uma vez o problema decorre não dos testemunhos externos, mas do testemunho interno, sendo evocado pela BHS somente, haja vista a menção em Js 15.13 de que Calebe expulsou os três filhos de Anaque, Sesai, Aimã e Talmai, ao passo que em Jz 1.10 refere-se a Judá.
Mais uma vez, a harmonização do texto é pertinente, em detrimento da evocação da contradição entre os textos.
Basta admitir inelutavelmente que Calebe recebeu o apoio da tribo de Judá, de forma que está correto mencionar tanto um como outro. A propósito, em Jz 1.20 está escrito que Calebe expulsou os três filhos de Anaque.

Jz 1.10b
Somente a LXX traz um acréscimo após a palavra Hebron: καὶ ἐξη̂λθεν (aor, ativo, inf.) Χεβρων ἐξ ἐναντίας
Essa versão afirma: “e vinha Hebron do lado oposto”, cujo sentido transmite a idéia de que Hebron ofereceu alguma resistência à tribo de Judá.
No entanto, o acréscimo da LXX não deve preponderar sobre o TM, visto que é um testemunho isolado sem um único apoio.
Ademais, um dos cânones clássicos da crítica textual afirma ser preferível o texto mais curto em vez do mais longo, visto que, via de regra, o copista tem a tendência de fazer acréscimos. Esse cânone deve ser aplicado ao caso vertente.
Porventura o tradutor quis florear o texto ou elucidá-lo, acrescentando que houve alguma resistência por parte dos habitantes de Hebron.

Jz 1.10c
A LXX altera o nome anterior de Hebron, que era Quiriate-Arba (קִרְיַת אַרְבַּע ), para Kariatharboksefer (Καριαθαρβοξεφερ ), pelo que transliterou de forma unificada as palavras Quiriate e Arba acrescentando a palavra Sefer.
Sobre a unificação das palavras para formar um único nome, a Vulgata também traduz assim. Todavia, o acréscimo da LXX pôde ter decorrido de uma confusão com o outro nome de Debir, que é Quiriate-Sefer (קִרְיַת־סֵפֶר ).
Destarte, o copista poderia ter visualizado a palavra Quiria-Arba e também Quiriate-Sefer, e cometido uma confusão entre ambas, o que resultou em Quiriate-Arba-Sefer.

Jz 1.10d
Por fim, o editor da BHS sugere que o verbo ferir (נכה ) está no singular em vez do plural, de modo a concordar com o verbo partir que está no singular. Não obstante o aparente erro de concordância, não há qualquer evidência textual que apóie a sugestão do editor. Esse equívoco não passa de um mero erro acidental.

Jz 1.11a
A leitura original da LXX e sem revisão acrescenta o verbo subir logo após o verbo partir. O acréscimo pode ser explicado com base no texto paralelo de Js 15.15 que menciona tal acréscimo.
No entanto, trata-se de uma evidência isolada sem apoio nas próprias revisões da LXX. Talvez o tradutor fizesse o acréscimo com base em Js 15.15, aproveitando a tradução do mesmo texto.
Jz 1.11b
A LXX traduz o nome Quiriate-Sefer por “Cidade dos Livros” (Πόλις γραμμάτων ). A Vulgata translitera e em seguida traduz o nome da cidade.
A seu turno, o códice vaticano minúsculo da LXX segue a Vulgata, transliterando o nome da cidade e em seguida traduzindo.
Nesses casos trata-se de uma opção do tradutor no sentido de elucidar o texto original, representado aqui pelo TM.
A versão árabe troca o substantivo pelo particípio, seguindo o texto paralelo de Js 15.15. Talvez, o tradutor tivesse substituído o vocábulo com base em Js 15.15, aproveitando a tradução do mesmo texto.


Jz 1.12a
Após o nome da famigerada cidade Quiriate-Sefer, a LXX traduz o nome da cidade. A Vulgata evita essa redundância.
Em ambos os casos trata-se de uma opção do tradutor no sentido de elucidar o texto original, representado aqui pelo TM.

Jz 1.13a
A expressão “mais novo que ele” não aparece no texto paralelo de Js 15.17. Entretanto, isso não afeta a veracidade do texto de Jz 1.13.

Jz 1.14a
A LXX afirma que ele insistiu com ela, ao invés de ela insistiu com ele. De modo que a mudança está apenas no prefixo i em vez do que consta no TM (h ) e, consequentemente, alteração no sufixo feminino em vez de masculino.
Em Js 15.18 há semelhante problema crítico.
A divergência pôde ter originado numa cópia danificada usada pelo tradutor da LXX, de modo que resultou nesse equívoco. Nem todas versões da Vulgata seguem a LXX.
Uma vez que não há consenso na Vulgata, e nenhuma outra evidência é plausível optar pelo TM. Ademais, o verbo anterior “vir” é um infinitivo feminino, de sorte que transmite a idéia de que ela foi até ele e perguntou a ele.

Jz 1.14b
Conforme o TM, a palavra campo é precedida de artigo definido. No entanto, a leitura original da LXX e sem revisão omite o artigo, possivelmente com base no texto de Js 15.18. Talvez o tradutor omitiu com base no texto paralelo, aproveitando a tradução do mesmo.

Jz 1.14c
Por derradeiro, após o verbo descer, a LXX acrescenta a seguinte expressão: “e murmurava e gritava”, cujo sentido denota que a esposa de Otniel desceu do jumento fazendo um escândalo perante o pai a fim de impressioná-lo. Com efeito, o acréscimo faz sentido, porque logo após descer do jumento, Calebe pergunta-lhe o que deseja. A pergunta per se não faria sentido a menos que Calebe ouvisse alguma reclamação de sua filha.
No entanto, o acréscimo da LXX não deve preponderar sobre o TM, visto que é um testemunho isolado sem um único apoio.
Ademais, um dos cânones clássicos da crítica textual afirma ser preferível o texto mais curto em vez do texto mais longo, visto que, via de regra, o copista tem a tendência de fazer acréscimos. Esse cânone deve ser aplicado ao caso vertente.
Porventura o tradutor quis florear o texto ou elucidá-lo, de modo que o acréscimo apenas auxiliou a compreensão da pergunta de Calebe a sua filha.

Jz 1.15a
A versão grega de Áquila traduz a palavra fontes no singular. Em Js 15.19 há um problema crítico, pelo que a LXX, a Peshita e fragmentos de códices hebraicos da Guenizá também usam o singular.
Não obstante a plausível evidência crítica contra o TM em Js 15.19, em Jz 1.15, a versão grega de Áquila é um testemunho isolado, de sorte não deve prevalecer sobre os demais. Talvez o tradutor traduzisse no singular com base no texto paralelo, aproveitando a tradução do mesmo., ou então cometesse um equívoco na leitura do texto original.
A LXX fez uma confusão, pelo que substituiu a palavra fontes por preço ou resgate. Tal substituição deriva de um equívoco na visualização da palavra ou de cópia deteriorada, visto que a palavra preço é semelhante ao estado construto feminino da palavra fonte ou região.

Jz 1.15b
A LXX acrescenta após o nome próprio Calebe, a expressão “conforme o coração dela”. O próprio editor da BHS sugere que se trata possivelmente de uma inserção, sendo o caso de uma haplografia, que significa erro de cópia que é resultado de uma omissão acidental de letras ou de palavras.
A palavra Calebe é bem próxima da expressão, basta acrescentar o sufixo feminino e alterar ligeiramente as vogais que se obtém o acréscimo da LXX.
Dessa forma, a haplografia poderia estar no TM. Convém remeter às considerações iniciais acerca da LXX, cuja conclusão é in dubio pro TM.

Jz 1.15c
Por fim o editor remete o trecho “fontes superiores e fontes de inferiores” ao problema crítico que há no texto paralelo Js 15.19.
Todavia, no texto em comento não há o aludido problema.

Jz 1.16a
O editor sugere que a palavra queneus deve ser lida como em 4.11. É verdade que a falta do artigo poderia implicar indefinição do substantivo. Com efeito, deve ser lida dessa maneira, embora não se possa considerar uma falha grosseira no texto original, mas um mero erro acidental.

Jz 1.16b
A leitura original da LXX e sem revisão subtrai a expressão “Judá” que qualifica a palavra “deserto”, talvez porque estivesse apagada da cópia do texto hebraico. Ou ainda porque o tradutor entendeu que era uma redundância. Entretanto, revisões posteriores sanaram essa omissão.

Jz 1.16c
Segundo o editor, a expressão “que está ao sul de Arade”, a qual explica a localização do deserto de Judá, é uma glossa ou nota explicativa. E estava apagada do texto original.
Não há apoio crítico à sugestão do editor.

Jz 1.16d
Antes da palavra Arade a leitura original da LXX e sem revisão acrescenta a expressão ἐπὶ καταβάσεως que significa “em direção à descida de Arade”. As demais revisões da LXX corrigiram o acréscimo que teve origem provavelmente pela confusão com a expressão “em o deserto” cuja grafia hebraica é semelhante ao acréscimo.

Jz 1.16e
A leitura do final desse versículo é truncada, porquanto não é identificado o povo que habitou junto com os filhos de Judá e os filhos do queneu naquela região, de forma que o editor sugere que o texto está corrompido. Assim sugere a seguinte leitura: “Os amalequitas foram e habitaram com o povo.
O texto grego original da LXX substitui os verbos “foi” e “habitou” pelo verbo “habitou”. Talvez o tradutor entendesse que o verbo ir era uma redundância. A vulgata também evita esse hebraísmo “ir e habitar”, traduzindo somente a palavra habitar.
Todavia, o TM deve prevalecer.
Por fim, antes dos verbos citados o texto grego da LXX da tradição das Catenae junto com a Vetus Latina adicionam a palavra Amaleque, denotando que Amaleque habitou naquela região.
Uma vez que outras traduções, inclusive dentro da própria LXX, não trazem esse acréscimo, é mister ficar com o TM.
Esse acréscimo pode ser uma explicação do tradutor, uma vez que havia amalequitas naquela região e provavelmente eles também habitaram com os filhos de Judá e os filhos do queneu.

Jz 1.17a
O texto grego da LXX da tradição das Catenae e o texto grego do Códice Vaticano juntamente com o 2 manuscritos hebraicos medievais redigiram o verbo “feriram” no singular. Não obstante o erro de concordância, poderia ser que essa tradição estivesse em consonância com o original, até porque o TM comete esse equívoco. Ou então poderia dizer que o TM estaria errado, conforme sugeriu o editor em Jz 1.10.
Seja o que for, perfilho o TM, uma vez que dentro da própria LXX há divergência.
Mais um problema de concordância surge no verbo “chamou”, porquanto pelo contexto a idéia é que Judá e Simeão nomearam o local, no entanto, o verbo encontra-se no singular no TM, ao passo que no texto original da LXX está no plural.
Ainda assim, a despeito do erro, faço a opção pelo TM.

Jz 1.18a
A LXX afirma que Judá não herdou Gaza, Asquelon e Ecron e seus respectivos territórios. No entanto, o versículo seguinte ressalva que a expulsão não foi total.
A Vulgata segue o TM. Logo, o TM deve prevalecer.
Talvez o tradutor da LXX quisesse elucidar que Judá não herdou definitiva e completamente aqueles territórios embora tivesse tomado aquelas cidades.
Mesmo o TM deixa implícito que a ocupação não foi completa.

Jz 1.18b
Fragmentos de códices hebraicos da Guenizá não incluem a conjunção “e” na partícula acusativa que acompanha a palavra Asquelon. Isso pode ter ocorrido por um erro acidental do copista ou problema no próprio manuscrito.

Jz 1.19a
Alguns relevantes testemunhos acrescentam o verbo hL¥K¡I (qal, 3cp) antes do verbo לְהוֹרִישׁ (infinitivo do hifil) , de forma que a tradução seria “não conseguiram desapossar” em vez de simplesmente não expulsou.
Eis os testemunhos: manuscrito hebraico medieval, leitura marginal de manuscrito hebraico original, LXX, Vulgata e Targum.
Perfilho o acréscimo em detrimento do TM, visto que o texto paralelo de Js 15.63 contém a inserção. E, por certo, a inserção faz sentido, visto que o infinitivo carece do verbo acrescentado por questão de sintática e para elucidar a leitura tornando-a escorreita.
Assim sendo, a tradição do TM perpetuou uma omissão acidental cometida pelo copista.
À medida que a LXX, Vulgata e outros testemunhos hebraicos divergirem do TM, o caso deve ser ponderado com mais cuidado, de modo que o TM poderá não prevalecer, com ocorreu no caso vertente.

Jz 1.20a
O editor da BHS entende que várias palavras foram excluídas desse versículo, haja vista a inserção de outras palavras pela LXX e outras versões e o texto de Js 11.21 que afirma que Josué havia destruído totalmente os enaquins.
Não há nenhum problema em harmonizar o texto de forma que a destruição dos enaquins perpetrada por Josué tenha ocorrido com o auxílio de Calebe, ou houvesse a sobrevivência inexpressiva e oculta dos três filhos de Enaque, exterminados, posteriormente, por Calebe.
A Vulgata concorda totalmente com o TM e a LXX parcialmente, de forma que o TM deve prevalecer.

Jz 1.20b, c
A LXX adiciona antes da expressão “filhos de Enaque” a palavra “cidades”, de forma a culminar na expressão “três cidades dos filhos de Enaque”.
No entanto, tal acréscimo é isolado, e foi inserido pelo tradutor com vistas a florear o texto ou até mesmo decorreu de um equívoco visual, pelo que o tradutor visualizou a palavra “cidades” em outros versículos da mesma página e inseriu-o.
Além desse acréscimo, o códice alexandrino da LXX e o texto grego segundo a recensão de Orígenes bem como a Vetus Latina acrescentam antes da palavra “cidades” a expressão καὶ ἐξη̂ρεν ἐκει̂θεν τὰς τρει̂ς que pode ser traduzida assim “e tomou dali as três cidades”.
A Códice Veronense e o texto grego da LXX segundo a recensão de Luciano, a versão Saídica, a versão Síria e a versão árabe acrescentam após a palavra Enaque, a expressão “e tomou dali os três filhos de Enaque”.
Visto que a Vetus Latina é geralmente dependente da LXX, seu valor crítico dever ser ponderado com cautela.
Não obstante o testemunho de outras versões, perfilho o TM porquanto até entre a LXX há divergências, ao passo que a Vulgata segue o TM.
Talvez os tradutores tivessem cometido equívocos visuais.

Jz 1.21a
Segundo os massoretas orientais o particípio ativo do verbo habitar deve ser lido no plural em vez do singular, de forma que seria traduzido assim: os jebuseus que habitam em Jerusalém, em vez de “os jubuseus que habita em Jerusalém.
Com o Qerê oriental concordam vários manuscritos hebraicos. O texto paralelo de Js 15.63 também corrobora o qerê oriental.
A Vulgata e a LXX corroboram o TM.
Se se entender que houve um erro gramatical do copista, o qerê oriental deve preponderar. Se se entender que o autor inspirado deixou acidentalmente a marca de sua natureza humana e falha sem que tal erro maculasse a inspiração e inerrância da Palavra, visto que a inerrância não implica gramática escorreita, como também matemática, astronomia, ciência, mas que os autores não estiveram livres dos conceitos e equívocos acidentais e toleráveis no seu tempo, o TM há de prevalecer.
Não tenho dificuldade de aceitar um texto inspirado e inerrante que contenha eventualmente equívocos gramaticais e dados e registros sem precisão cronológica, científica, astronômica.
Assim sendo, perfilho o TM.

Jz 1.21b
Em vez dos filhos de Benjamim, o editor sugere os filhos de Judá, a fim de harmonizar o texto com Js 15.63.
À míngua de qualquer evidência textual, prefiro harmonizar o texto de outra maneira, a saber, admitindo que Judá também participou daquela empreitada, de forma que a menção a um quanto ao outro é correta.

Jz 1.22a
Vários manuscritos hebraicos bem como a LXX alteram a expressão casa de José por filhos de José.
Não obstante a possibilidade, haja vista que os versículos anteriores registram a expressão “filhos”, o TM deve prevalecer, visto que o testemunho em sentido contrário não tão expressivo. De forma que a LXX e os manuscritos hebraicos cometeram equívoco visual ou mental, até porque a grafia das palavras são semelhantes e em versículos anteriores a expressão que aparece é filhos.

Jz 1.26a
Poucos manuscritos hebraicos medievais incluem antes da palavra terra a preposição L£@, seguida do maquef, outros manuscritos a preposição ¥L .
A despeito da ausência da preposição no TM, a leitura está subentendida no próprio texto.
Destarte, os testemunhos contrários ao TM são insuficientes para serem verídicos, conquanto a LXX e a Vulgata coloquem uma preposição.
É possível que o copista dos manuscritos divergentes tenham uma mente mais helenizada, tendo a necessidade de escrever a preposição.

Jz 1.26b
A LXX acrescenta após o verbo edificou o advérbio ali. Trata-se de uma adição isolada e sem apoio de outros testemunhos, de forma que não deve preponderar sobre o TM.
Talvez, algum manuscrito hebraico tivesse acrescido o advérbio correspondente.

Jz 1.26c
Poucos manuscritos hebraicos medievais e fragmentos de códices hebraicos da Guenizá acrescentam a partícula acusativa ,
Faço remissão ao comentário de Jz 1.26a.

Jz 1.26d
A LXX altera o nome da cidade Luz para Louza. A Vulgata traduz para Luzam.
Conquanto a transliteração não se coadune com o texto hebraico, não há razões para se crer que o TM esteja errado. Porventura naquele tempo a transliteração do nome daquela cidade seguia aquela forma.

Jz 1.27a
Muitos manuscritos hebraicos medievais e quase todas as versões acompanham o querê, ou seja, o particípio ativo do verbo habitar deve ser lido no plural em vez do singular.
Não obstante o comentário retro de Jz 1.21a, creio que a variante deve ser preferida em relação ao TM. Porque nesse caso, as evidências textuais pendem para a variante, uma vez que há relevantes versões e muitos manuscritos hebraicos que corroboram a variante.
Assim sendo, nesse texto o erro visual é dos copistas do TM. Não é possível que o autor sagrado tenha cometido o mesmo erro duas vezes. Aí é demais...

Livro de Reis

Livro de Reis

Introdução
Os livros dos Reis formavam um só livro no Antigo Testamento Hebraico, ao passo que a LXX dividiu-os em dois volumes. Somente a partir de 1448 a Bíblia Hebraica começou a dividir ambos os livros.

Autor
Segundo a tradição judaica, Jeremias escreveu os livros de Reis. Todavia, o próprio título dos livros tão-somente traz a inscrição “Reis”, não sendo mencionado ainda que indiretamente o nome do autor, de modo que a autoria permanece anônima.
A autoria de Jeremias não é ilógica, visto que há muitas referências a profetas e profecias cumpridas. Os capítulos finais de Reis são semelhantes ao capítulo 52 de Jeremias. Isso pode tanto indicar uma mesma autoria, ou no mínimo o uso de fontes semelhantes. A propósito, não obstante a característica narrativa do livro, a Bíblia Hebraica incluiu-o na seção dos livros proféticos.

Data dos livros
A ala mais conservadora e menos recente defende que o livro foi escrito ou concluído não muito tempo depois da libertação de Jeoaquim o qual estava preso na Babilônia. Assim, Jeoaquim foi liberto no ano de 562 a.C, ao passo que a conclusão do livro sucedeu no ano de 550 a.C.
Contudo, uma ala crítica defende que houve duas composições distintas. Uma na época do livro de Deuteronômio, ou seja, nos dias da reforma de Josias, e outra posteriormente.
Outra ala moderada acredita que o livro foi escrito durante o exílio. Nesse período o povo teria mais condições de refletir sobre as causas que culminaram no cativeiro.
Não há motivos para não se crer que o livro de Reis fora escrito à medida que os eventos sucedessem. Até porque havia intensa atividade literária profética naqueles períodos, mormente na época dos profetas escritores.
Aliás, os livros usam várias fontes, o que atesta que havia registros ou crônicas dos acontecimentos.

Características e temas
O autor desses livros utilizou outras fontes históricas (11.41; 14.19.29).
O livro expressa as idéias e ensinos registrados no livro de Deuteronômio. Nesse livro observa-se o efeito prático da lei de Moisés na vida do povo. As palavras de Moisés insertas no livro de Deuteronômio, sobretudo no capítulo 28, se cumprem cabalmente: as bênçãos atingem a plenitude no reinado de Salomão, ao passo que as maldições nos cativeiros assírico e babilônico. O livro foi intitulado de “História Deuternomista”, uma vez que esse livro, junto com os livros de Josué e Samuel, desenvolve a teologia de Deuteronômio no que diz respeito às bênçãos e maldições inerentes à prática da Lei.
Esses livros cobrem um período de 410 anos, de forma que inicia com os últimos dias de Davi (971 a.C.) e termina com a restauração de Joaquim (561 a.C.).
O livro de Reis pode ser dividido em três partes:

PARTE 1
A MONARQUIA UNIDA (1Rs 1-11)
O reinado de Salomão abriu caminho para a convulsão nacional à medida que ele passou gradualmente da sabedoria e lealdade à aliança para a insensatez e a apostasia
PARTE 2
A MONARQUIA DIVIDIDA
A história da teocracia dividida realça o poder destrutivo da apostasia em Israel e a intervenção misericordiosa de Yahaweh em favor de Judá, por amor a Davi (1Rs 12-2Rs 17)
PARTE 3
O REINO ÚNICO DE JUDÁ
A história da monarquia independente de Judá retrata um declínio espiritual constante, interrompido por dois reavivamentos que conseguem apenas retardar a avalanche de disciplina pactual contra a nação (18.1-25.26)

A narrativa do livro aborda basicamente:

1- O apogeu da nação judaica
Após a morte de Davi, seu filho assume o trono, e torna-se o rei mais poderoso daquela região. Nessa época as fronteiras de Israel alargaram-se sobremaneira, de modo que cumpriu-se cabalmente a promessa de Deus realizada a Abraão. Essa época é considerada como a Idade de Ouro da história dos judeus. Os outros impérios daquela época estavam fracos.
Salomão escolheu a sabedoria. Por conseguinte, adquiriu poder, riqueza e honra. Salomão edificou o Templo, considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. No entanto, ele envolveu-se com várias mulheres, por conta de motivos políticos.

2- O reino dividido (930 a.C)
O reino unido durou 120 anos: Saul, 40 anos; Davi 40 anos; Salomão, 40 anos. As dez tribos formaram o reino do Norte, ao passo que Judá e Benjamim o reino do Sul.

3- O reino do norte entregando-se à idolatria

4- O reino do Sul resistindo à idolatria por mais tempo

5- O ministério dos profetas
Elias combateu fortemente o culto a Baal. Tal deus pertencia ao povo cananeu, o qual acreditava que exercia influência sobre a agricultura, chuva e fertilidade. Os adoradores de Baal sacrificavam os infantes. Seguidamente, Eliseu, como discípulo de Elias, deu seqüência ao seu ministério.

6- O cativeiro de Israel pela Assíria (722 a.C), cuja capital era Nínive
Os profetas dessa época foram: Oséias, Isaías e Miquéias e Amós.
A Assíria utilizava a deportação como método de conquista dos outros povos, isso desintegrava a nação conquistada, de modo que enfraquecia-se, dificultando as rebeliões. A Assíria era uma nação cruel, pelo que esfolavam vivos seus prisioneiros, ou cortavam-lhes as mãos, os pés, o nariz, as orelhas, ou lhes vazavam os olhos, ou lhes arrancavam a língua, faziam montes de caveiras humanas, com vista à intimidação, e inspiração do terror.

7- O cativeiro de Judá pela Babilônia em três ocasiões
Profetizaram nesse período os profetas: Jeremias, Ezequiel, Daniel, Naum, Sofonias.
*605 a.C: Nabucodonosor subjugou Jeoaquim, levou os tesouros do templo, a descendência real, inclusive Daniel, para a Babilônia.
*597 a.C: Nabucodonosor voltou e levou o restante dos tesouros e o rei Jeoaquim, e 10.000 dos príncipes, oficiais e homens principais, todos cativos à Babilônia.
*587 a.C: Novamente os babilônios retornaram e incendiaram Jerusalém, quebraram seus muros, vazaram os olhos do rei Zedequias e levaram-no algemado para Babilônia.
Assim terminou o reino terrestre de Davi. Entretanto, há uma nota de esperança no último capítulo do livro, ao relatar a preservação e libertação do descendente real de Davi, o rei Jeoaquim.
Infere-se um conteúdo messiânico no livro, visto que a monarquia e o estado independe de Israel chegou ao fim, restando somente a restauração do reino davídico e da independência da nação pelo Messias.
Com efeito, o propósito do autor é teológico, não obstante os relatos sejam históricos e fidedignos. Por exemplo, do ponto de vista do historiador secular, Onri foi o rei do norte mais importante, entretanto o autor dedica pouca atenção à sua época, ao passo que períodos muito menores receberam maior ênfase, como o ministério do profeta Elias e Eliseu.
A Aliança de Deus, cujo mediador foi Moisés, encaixa-se bem como tema central. A teoria da Lei de Moisés pôde ser vista na prática. Há um constante contraste entre o reino fiel a Deus e o reino idólatra, com as respectivas bênçãos e maldições.
O livro também explica às gerações sobrevivente ao exílio e às vindouras a causa do exílio. Em suma, todas as desgraças advieram da desobediência do povo que não observou fielmente a Lei de Deus dada a Moisés, e registrada no Pentateuco, sobretudo nos dez mandamentos e no capítulo 28 de Deuteronômio.

CRONOLOGIA DOS REIS DE ISRAEL E JUDÁ


REIS DE ISRAEL E DE JUDÁ
(ATÉ A QUEDA DE SAMARIA)
Judá Data Israel
A Casa de Davi 931 A Casa de Jeroboão
Roboão 931-913: Filho de Salomão. No início de seu reinado as tribos do Norte se separaram das do Sul para formar um reino independente Divisão do reino de Salomão
Sisaque ataca a Palestina Jeroboão I 931-910: Primeiro rei das tribos do Norte depois da divisão do reino de Salomão
920
910 Nadabe 910-909
Abias 913-911 900 A Casa de Baasa
Asa 911-870 890 Baasa 909-886: Assasinou a Nadabe e usurpou o trono
Elá 886-885
Zinri 885
880 A Casa de Omri
Onri 885-874: Foi um dos reis mais importantes de Israel. Fortaleceu o reino através de alianças e conquistas e fez de Samaria a capital de Israel
Josafá 870-848: Judá voltou a ser próspera durante seu reinado, e houve paz entre Israel e Judá 870
[Elias]
860 Acabe 874-853: Tentou unificar os elementos israelitas e os cananeus pondo em perigo o concerto com Deus
Jeorão 848-841 [Eliseu] Acazias 853-852
850 Jorão 852-841
Acazias 841: Foi assassinado por Jeú, de Israel 840 A Casa de Jeú
Atalia 841-835: Usurpou o poder quando seu filho Acazias foi assassinado Jeú 841-814: Foi originalmente um oficial do exército; assassinou Jorão e erradicou o culto a Baal em Israel
Joás 835-796: Filho de Atalia. Subiu ao poder quando Atalia foi deposta por um complô palaciano 830
820
810 Jeoacaz 814-798
Jeoás 798-783
Amazias 796-781 800
790
Uzias ou Azarias 781-740: Reinou durante um tempo de paz com Israel. Fortaleceu e extendeu seu reino 780
770 Jeroboão II 783-743: Em seu governo Israel gozou de prosperidade
Jotão 740-736 [Amós] Zacarias 743: Reinou por 6 meses
760
750 Salum 743: Reinou por 1 mês
[Oséias] A Casa de Menaém
740 Menaém 743-738
Acaz 736-717: Pediu ajuda aos assírios para fazer frente à Síria e Israel. Este movimento fez Judá ser dependente da Assíria [Isaías]
[Queda de Damasco, 732]
730
720
[Queda de Samaria, 721] Pecaías 738-737
Peca 737-732

Oséias 732-724: Último rei de Israel. Em 721 Samaria caiu diante da Assíria e houve uma deportação em massa
Sociedade Bíblica do Brasil. 2002; 2005. Bíblia de Estudo Almeida - Revista e Corrigida . Sociedade Bíblica do Brasil

A cronologia apresentada pelo livro possui a priori algumas aparentes discrepâncias, que, após uma ponderação acurada, é totalmente dirimida. Considerando que o autor do livro dos reis computa um ano incompleto como completo, que o período de um reino é arredondado, e que há casos de co-regências (2Re 15.5), as aparentes discrepâncias são facilmente harmonizadas.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

PROFETA MALAQUIAS 1

Como entender e praticar a mensagem do Profeta

Introdução
A Bíblia Sagrada não é um mero livro como outro qualquer. Trata-se da Palavra de Deus, escrita por homens que foram inspirados por Deus, e é totalmente apta para nos ensinar, corrigir e nos tornar perfeitos e perfeitamente habilitados para toda boa obra (2Pe 1.21; 2Tm 3.16).
Uma vez que a Bíblia Sagrada é o livro pelo qual Deus escolheu se revelar e se comunicar conosco, devemos envidar todo esforço no sentido de compreender sua mensagem e praticá-la.
Nessa preciosa empreitada de entender a mensagem para cumpri-la não podemos jamais menosprezar o sublime e imprescindível auxílio do Espírito Santo de Deus, o qual é o autor divino do livro, intérprete e aplicador da mensagem (Jo 14.26, 16.13).
No entanto, como a Bíblia é também um livro humano, ou seja, escrito por homens inspirados por Deus, a compreensão da mensagem não está desvinculada ou dissociada das regras universais de interpretação de texto. Por isso, precisamos atentar para as regras da hermenêutica. A tarefa da hermenêutica é estudar as regras de interpretação de um texto.
Esse trabalho hermenêutico se baseará no Livro do Profeta Malaquias. Como Malaquias não está mais entre nós, e não deixou nenhum porta-voz que pudesse nos explicar e esclarecer sua mensagem, resta-nos lançar mão das regras de hermenêutica para compreender sua mensagem. Alguém pode perguntar: “Mas o Espírito Santo não pode fazer isso diretamente?” Bem, Ele até pode fazer isso, mas não faz, pois preferiu atuar em outro âmbito, isto é, espiritual, e deixar os recursos humanos para que, utilizando-os, fizéssemos uma boa interpretação. Ou seja, o Espírito Santo não é o substituto do professor de português, hebraico e grego. Não sopra diretamente na mente das pessoas o significado do texto. Pelo contrário, Ele ilumina nossa compreensão, guiando-nos nesse processo de interpretação.
Portanto, nesse trabalho analisaremos os recursos espirituais e humanos necessários à boa interpretação e à prática integral da mensagem. Porque não podemos olvidar que temos de ser praticantes da palavra e não somente intérpretes, ou melhor, ouvintes (Tg 1.22).
Enfim, não adianta nada compreender perfeitamente a mensagem e não pô-la em prática. Por outro lado também, o integral cumprimento da palavra depende de uma interpretação escorreita.

1) A origem da palavra de Malaquias

Introdução
Como já foi mencionado, a Bíblia Sagrada é um livro sui generis, especial e diferente de todas os livros existentes. Para o correto entendimento de sua mensagem não basta utilizar cegamente os recursos humanos disponíveis para a interpretação de sua mensagem. Isto é, não basta analisar o contexto do livro de Malaquias para entender sua mensagem.


A) Deus enviou Sua palavra a Malaquias
A mensagem de Malaquias não vem dele. O texto expressa claramente que vem de Deus, pois a palavra é do Senhor, pertence a Ele. Por isso, não basta aplicar as regras básicas de interpretação sem atentar para a origem da mensagem.

A origem divina da mensagem nos ensina a:

i) Ouvir a voz do Espírito Santo
Antes de ouvirmos o que o profeta Malaquias tem a nos dizer, devemos ouvir o que o autor e o dono da palavra quer falar. Uma vez que a palavra é de Deus, a ele devemos ouvir.
Infelizmente, à medida que os ouvintes desprezam a voz do Espírito Santo, a tendência natural e inexorável é rejeitar a mensagem do profeta. Jesus usou inúmeras vezes a expressão “quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz” (Ap 2.7, 11; 17, 29; 3.6, 13, 22).

ii) orar
Como nossa audição espiritual tem a tendência de apresentar alguns distúrbios como zumbidos, perda auditiva, ou até surdez, a oração é uma forma eficaz de sanar tais problemas.
Nosso adversário trabalha para cegar o entendimento ou impedir que a palavra do Senhor dê frutos (2 Cor 4.4; Mc 4.1-20). Por isso precisamos orar e pedir ao Senhor que nos dê mais e mais entendimento de sua palavra. A propósito, o apóstolo Paulo orava para que Deus desse o Espírito Santo[1] de sabedoria e revelação aos cristãos de Éfeso (Ef 1.17).
Também precisamos orar para colocar a palavra em prática, pois lutamos contra o pecado que habita em nós e contra Satanás.

B) Deus usou Malaquias como um intermediador
A ACF traduz a expressão hebraica בְּיַד מַלְאָכִי como “por intermédio de Malaquias”. A NVI traduz “por meio de Malaquias”. A expressão hebraica literalmente quer dizer “pela mão” ou “com a mão de Malaquias”. Com efeito, o sentido não é que a mensagem passou pelas mãos físicas de Malaquias, como se Malaquias entregasse ao povo um CD gravado pelo Senhor, mas que Malaquias era o intermediador da mensagem, sendo o porta-voz.

C) Deus enviou sua palavra a um povo
Israel é o destinatário das palavras.
A existência de um mediador e um destinatário nos ensina a usar os recursos humanos disponíveis
A mensagem vem de Deus, mas Malaquias é Seu porta-voz. A mensagem vem de Deus, mas Israel é o destinatário. O profeta não usou uma linguagem celestial, porém falou em hebraico, que era a linguagem do povo. O profeta não falou especificamente para todas as eras, porém se dirigiu contra Israel. O profeta não veio do céu, porém se localizava na Palestina.
Todos esses fatores denotam que há uma barreira entre nós e a compreensão da mensagem, pois a mensagem tem várias peculiaridades linguísticas e literária, cronológicas, culturais e geográficas.
Malaquias não falava português, não era brasileiro, não era membro de Igreja Evangélica; se fosse casado, não era casado no cartório ou na igreja, não morava em São José dos Campos, etc..
Observe as inúmeras distinções entre nós e Malaquias. O que fazer agora? Buscar o Senhor e orar? Para superar essas barreiras o próprio Espírito Santo colocou à nossa disposição alguns recursos humanos e regras que nos auxiliam a compreender a mensagem sempre no intuito de pô-la em prática.
[1] Essa palavra pode se referir ao Espírito Santo, devendo ser traduzida por Espírito, como sugere a NVI.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Sabedoria de Pv 8 é messiânica

A sabedoria de Pv 8 e Cristo

Em uma aula virtual no curso de pós-graduação no Mackenzie sobre o a literatura sapiencial, mais especificamente, Pv 8, estava escrito: "Em vários contextos, a sabedoria é personificada; ela é nascida de Deus, ela se alegra no mundo criado, e é a fonte da vida."
Indo além do comentário, faço a seguinte proposição: A Sabedoria de Pv 8, com “S” maiúsculo, não é somente uma pessoa, mas tem matiz messiânica, de modo que fala de Cristo. Assim sendo, não somente foi personificada, mas messianizada.
A seguinte estória pode ilustrar o que proponho: Se eu estivesse numa viagem para Jerusalém lendo Pv 8, e, de repente, o apóstolo Paulo aparecesse ao meu lado perguntando: "Entendes tu o que lês?" Eu não hesitaria em dizer-lhe: "Como poderei entender, se alguém não me ensinar?".
Creio que Paulo me anunciaria Jesus a partir desse texto, dizendo: "Cristo é a sabedoria de Deus" (1Cor 1.24).
Fundamento minha proposição no seguinte raciocínio: A linguagem de Pv se assemelha muito com a linguagem de Jo 1 e Cl 1.
João afirma que Cristo estava no princípio com Deus. Duas vezes ele usa a palavra princípio. O mesmo ocorre em Pv 8. No evangelho de João o vocábulo grego é arché, ao passo que o em Pv 8 o hebraico é re’shiyth. A LXX usa a mesma palavra de João para traduzir o hebraico.
Assim sendo, Tanto Pv quanto João usam o mesmo termo. A palavra princípio transmite a idéia de princípio absoluto, i.e,” algo antes do tempo, não um começo dentro do tempo, mas um princípio absoluto, que se pode afirmar somente com respeito a Deus, de Quem não se pode predicar nenhuma categoria temporal” (Dicionário Internacional de Teologia do NT, p. 368).
Em Cl 1.15-20 que fala da preexistência e supremacia de Cristo, se refere a ele como “o princípio”. A palavra também pode denotar que Cristo é a “causa primordial da criação” (DITNT, p. 369), embora o sentido de Jo 1.1, a saber de “princípio absoluto” não esteja excluído.
Todos os textos em comento (Jo 1.1, Cl 1.15 e Pv 8) falam de um momento chamado princípio, e que nesse momento uma pessoa que se relacionava com Deus estava envolvida na obra da criação.
Portanto, são textos cujo paralelo extrapolam a mera correlação casual de textos, ou coincidência, de modo que a relação dos textos não é forçada pela paralelomania, mas há um contexto que une os textos em torno de um assunto comum: uma pessoa-princípio-criação-Deus.
Ante essa estreita relação, não hesito em afirmar que a sabedoria de Pv tem matiz messiânica. A propósito, outros textos considerados messiânicos (Sl 22, entre outros Salmos) são bem menos explícitos que Pv 8. Ora, se Paulo não hesitou em afirmar que a pedra que jorrava água para o povo no deserto era Cristo, com efeito, faria a mesma afirmação, Cristo é a Sabedoria de Pv 8, se houvesse oportunidade de se manifestar sobre o texto de Pv 8.
A propósito, em outros textos o apóstolo Paulo faz uma declaração implícita, como em 1Cor 1.24, e Cl 2.3. Ou seja, nesses textos, embora Paulo não fizesse alusão direta ao texto de Pv 8, é possível inferir que estivesse referindo-se implicitamente.
Com vistas a elucidar e corroborar minha assertiva, acrescento o seguinte comentário:

“É clara a influência destes VS. No prólogo do Evangelho de João.
A sabedoria se oferece como mediadora eficaz entre Deus e o homem. O NT apresentará mais tarde Cristo como a sabedoria de Deus (1Co 1.24,30; Cl 2.2-3) e como o único mediador eficaz entre Deus e o gênero humano (1Tm 2.5) (Bíblia de Estudo Almeida).

“Visto que os mandamentos e a sabedoria são ligados em Dt 4.6 e, especialmente, no pensamento judaico (por exemplo, Eclesiástico 24.23; Apocalipse de Baruque iii. 37 e segs.), não é surpreendente que o apóstolo Paulo tenha visto Jesus, a nova Torah, como a sabedoria de Deus. Que Paulo via em Cristo o cumprimento de Pv 8.22 e segs. Parece evidente por uma passagem como Cl 1.15 e segs., que reflete intensamente a descrição do Antigo Testamento sobre a sabedoria (Novo Dicionário da Bíblia, p. 1425).”

É verdade que outros comentaristas são mais comedidos e cautelosos na identificação da Sabedoria de Pv com Cristo. Ainda assim, admitem que o texto aponta para Cristo, ainda que de forma indireta.

“Em Provérbios, as referências a Cristo relacionam-se principalmente à caracterização da “sabedoria” no capítulo 8. Mas esse texto faz referência a Cristo apenas de modo indireto. [...] O Novo Testamento lembra-nos, porém, que Cristo é a “sabedoria de Deus” [...]. Muitas das caracterizações da sabedoria em Pv 8.22-31 têm extraordinárias semelhanças cristológicas. (Conheça Melhor o Antigo Testamento, p. 188)

“Por isso, esses versículos não devem ser interpretados como referência direta a Cristo. Não deixam, porém, de fornecer parte dos antecedentes históricos para o retrato que o NT pinta de Cristo como Palavra divina (Jo 1.1-3) e como sabedoria de Deus (1Co 1.24,30; Cl 2.3).” (Bíblia de Estudo NVI).

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Deuteronômio 28 aplicado à igreja

A aplicação de Dt. 28
O texto de Dt 28 que trata das bênçãos e maldições atreladas à obediência ou desobediência aos mandamentos do Senhor tem causado bastante confusão, não nas igrejas históricas e pentecostais clássicas
[1], mas naquelas famigeradas neopentecostais[2]. Com efeito, a confusão não decorre do texto per se, porquanto o texto em si é a Palavra infalível e inerrante de Deus. Pelo contrário a confusão advém dos intérpretes, e estes pertencem às igrejas neopentecostais.
Mas qual é a confusão? Pregadores neopentecostais têm insistido em que aquelas promessas registradas naquele capítulo aplicam-se a todos os indivíduos sem distinção.
Por exemplo, qualquer pessoa que guardar o mandamento do Senhor deverá ser bem-sucedida em tudo que fizer (28.8), deverá ter riquezas, de modo que não fará empréstimos, mas emprestará aos outros (28.12).
Por outro vértice, qualquer pessoa que não guardar o mandamento do Senhor deverá ser mal-sucedida em tudo que fizer (28.20), e não terá riquezas, de modo que tomará emprestado e não emprestará a ninguém (28.44). Enfim, só experimentará sofrimentos amiúdes (28.29).
Assim sendo, segundo essa forma – confusa – de interpretação, sempre haverá uma relação de causa e efeito entre coisas boas e ruins, ou seja, a bênção está ligada à obediência, ao passo que a maldição está atrelada ao pecado.
Consequentemente, qualquer crente que estiver atravessando períodos de crise financeira, familiar, física, etc., deverá se auto-examinar para verificar se não há algum pecado oculto.
Essa forma de interpretação, conhecida como Teologia da Prosperidade, tem causado confusões desastrosas na vida de um servo fiel ao Senhor Deus que esteja passando por crises. Ele poderá entrar em estado de obsessão e desespero, buscando um pecado em sua vida, que não existe, a fim de se livrar da famigerada maldição.
Frequentemente, houve-se falar de pessoas que, não achando um pecado em suas vidas, fabricam pecados, eliminando-os somente para se livrarem da maldição. Por exemplo, inventam pecados como comer um tipo de alimento, não tocar em um objeto amaldiçoado, não possuir um objeto suspeito, como quadro, escultura, etc..
Após se livrar daquilo que pensa ser pecado, mas na verdade não é, e continuar na crise, o desespero, medo e pânico se agravam ainda mais, até ao ponto de culminar na completa incredulidade e até apostasia da fé.
Os pregadores da prosperidade esquecem-se de que o próprio povo de Israel sofreu no Egito e teve falta de pão e água no deserto, mesmo não havendo qualquer pecado específico. Pelo contrário, Deus havia planejado muito tempo antes o sofrimento no Egito (Gn 15.13-16), e as provações no deserto faziam parte do plano de Deus (Dt 8.2-5).
Todavia, um personagem bíblico famoso calhou facilitando a exata compreensão desse texto. Se não fosse a vida de Jó, a interpretação desse texto seria difícil, porque realmente o texto impinge a relação de causalidade entre pecado e maldição, obediência e bênção. O texto de Dt 28, lido fora de seu contexto, parece indicar que todo o mal está ligado ao pecado ao passo que todo bem está atrelado à obediência.
A vida de Jó desmantela esse conceito simplista e não ensinado por Deus. Ele era o homem mais fiel de seu tempo, mas Deus, sim, o próprio Deus, permitiu que ele sofresse nas mãos de Satanás (Jó 1.1-2.13).
Os amigos de Jó – e que amigos! – acusavam Jó de ter pecado. E Jó, mesmo ciente de que era fiel, chegou a pensar que tinha pecado (7.20,21). Elifaz e os outros amigos de Jó insistiam na “teologia da prosperidade”, em que a bênção e maldição estão relacionadas com a obediência e o pecado, respectivamente (15.17-35).
Mas Jó rebatia essa tese infundada, preconizando sua fidelidade (cap. 31), e afirmando que os ímpios também são prósperos (cap. 21); mas ao pensar nisso, Jó ficava perturbado (21.6)!
Por fim, Deus rejeitou a tese – teologia da prosperidade – dos amigos de Jó (42.7,8).
Essa bela história facilita o entendimento de que não há uma relação absoluta entre bênção e obediência, maldição e pecado. Ou seja, mesmo que a obediência proporcione bênçãos na vida do cristão e que o pecado traga desgraças – isso é inegável – não podemos jamais dizer que toda crise é consequência do pecado, e que toda bênção é consequência da obediência. O livro de Jó facilita esse entendimento ao revelar que há certos males que não têm qualquer relação com pecado, o exemplo disso é a tribulação de Jó, que não tinha nenhuma relação com um pecado específico. O livro ainda fala que há certas bênçãos que não tinham relação com a obediência a Deus, como o caso de ímpios prósperos.
Não se pode olvidar que o livro de Dt 28 é uma ampliação e explicação da Aliança que Deus fez com Israel no monte Sinai (Ex 19.5; 24.8), cujo intermediador dessa aliança era Moisés. Essa aliança ou acordo envolvia Deus e povo, e foi mediada por Moisés. Essa aliança possuía as estipulações, deveres e obrigações do Rei, que é o próprio Deus, e do povo, que é a nação de Israel.
Portanto, nesse momento, já podemos concluir que o texto de Dt 28 não se aplica a cada servo de Deus individualmente, não obstante o uso do pronome definido singular ti, tu. Embora o texto de Dt 28 pareça tratar com indivíduos, usando expressões como “bênçãos virão sobre ti”, “virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão”, o contexto de Dt 28 revela que o âmbito da bênção e maldição não é individual mas nacional. Isto é, o texto de Dt 28 se refere à nação, à coletividade, ao povo de Israel enquanto nação.
O v. 12 afirma que haveria empréstimo a “muitas nações”. O v. 8 fala que haveria bênção “na terra que te der o Senhor”, isto é na terra da nação de Israel. O v. 36 revela que haveria cativeiro em uma nação desconhecida. O v. 49-57 denota que uma nação seria usada para punir. Essa nação sitiaria as portas (v. 52). O fato de sitiar as portas indica que as cidades seriam conquistadas, apontando para a nação, a coletividade, pois naquela época as portas eram a entrada da cidade.
Ainda assim, alguns versículos de Dt. 28 utilizam o verbo e pronome no plural: v. 62, 63, 64.
Portanto, o uso de pronomes no singular é um estilo literário. Por exemplo, os dez mandamentos foram escritos no singular (não furtarás, matarás...) mas é um código dirigido à nação, ao povo.
Dessa forma, as bênçãos e maldições sobreviriam à nação, ao povo. E isso aconteceu de fato. A nação de Israel foi próspera nos dias de Davi e Salomão, porque foram obedientes aos mandamentos do Senhor. Mas quando se rebelaram contra o Senhor, experimentaram as maldições e sofreram nas mãos da nação da Assíria e Babilônia.
O texto de Dt 28 nunca significou desde o Antigo Testamento um escudo contra o sofrimento individual, nunca foi uma garantia contra as tribulações inerentes à vida depois do pecado de Adão e sofridas pelo cristão individual.
Pelo contrário, esse texto era uma chave para entender a história do povo de Deus no Antigo Testamento, de forma que a nação prosperava na medida da fidelidade, e sofria na medida da infedelidade.
O povo de Deus, sim, a coletividade, seria abençoado e distinguido dos demais povos. De modo que, a fidelidade do povo de Deus traria bênçãos, ao passo que a infidelidade traria maldições.

Aplicabilidade à Igreja
Creio que esse texto também se aplica à Igreja, enquanto corpo de Cristo, no sentido coletivo. De forma que uma Igreja fiel experimentará bênçãos, ao passo que uma igreja apóstata sofrerá.
No entanto, jamais podemos usar esse texto de forma absoluta, e estabelecer aquela relação de causalidade absoluta, com se toda bênção estivesse relacionada à obediência e maldição ao pecado.
A história da Igreja revela que a Igreja fiel recebeu bênçãos, mas também sofreu.
As cartas endereçadas às setes igrejas da Asia Menor denotam que a fidelidade traz bênçãos e que a desobediência traz tribulações. A igreja de Filadélfia seria preservada da hora da tentação que haveria de vir sobre o mundo (Ap 3.10), ao passo que a igreja de Tiatira seria punida pelo pecado (2.22,23). A punição da igreja de Tiatira serviria de testemunho de que Deus dá a cada um segundo as suas obras (2.23).
No entanto, para elucidar que não existe relação absoluta entre pecado e maldição, temos o exemplo da igreja de Esmirna, que mesmo não sendo repreendida por nada e sendo rica para com Deus, era pobre e sofreria tribulações (2.9,10).
Com vistas a quebrar completamente a relação absoluta de causalidade, verificamos que a igreja de Laodicéia era rica, mas não agradava a Deus.
Agora, o que uma igreja próspera deveria fazer? Usufruir as riquezas comprando carros novos, apartamentos no litoral, como vemos em algumas propagandas enganosas e pecaminosas veiculadas pela mídia que se diz evangélica, mas não é? Por certo a resposta é NÃO!
O próprio livro de Dt propõe uma forma de aplicar os recursos dados por Deus ao seu povo. O texto de Dt 15.7,8,11 ensina o povo a emprestar ao necessitado. Assim, os ricos deveriam suprir a falta dos pobres. A propósito, o v. 11 prenunciou que sempre haveria pobre na terra prometida. E, repisa-se, pobreza não tem uma relação necessária com o pecado. Basta relembrar a igreja de Esmirna, que era pobre, mas fiel a Deus.
O Senhor Jesus Cristo citou a passagem de Dt 15.11 ao dizer que sempre haverá pobres entre o povo de Deus. Porque um crente fiel é pobre e outro crente fiel é rico? Deus sabe, ele é soberano. Dt 29.29 deve calhar.
O apóstolo Paulo também propôs à Igreja de Corinto que auxiliasse os irmãos pobres de Jerusalém (1Co 16.2,3; 2Co 8.14,15).
Quiçá esse mesmo espírito de generosidade deveria haver por exemplo entre os crentes ricos de Laodicéia e os crentes pobres de Esmirna. Dessa forma, o corpo de Cristo gozaria as bênçãos do Senhor.
Com certeza haverá igrejas pobres e necessitadas para que as igrejas ricas e bastadas auxiliem-nas, suprindo as necessidades, e compartilhando as riquezas. De modo que a pobreza daquelas igrejas não terá necessariamente ligação com o pecado delas. Pelo contrário, poderá haver sim o pecado do egoísmo e avareza nas igrejas ricas por não auxiliarem as pobres.

Conclusão
Em poucas palavras e de forma simples, não simplista, podemos depreender que a fidelidade traz bênçãos e que a infidelidade traz maldições. Mas essa regra tem suas distintas e freqüentes exceções, pois não poucas vezes o fiel sofrerá ao passo que o infiel será próspero. Por que? A resposta é: Deus é soberano.
O povo de Deus, hoje chamado de Igreja, será abençoado à medida que for fiel a Deus e castigada na mesma proporção do pecado. No entanto, isso não quer dizer que indivíduos fiéis nunca sofrerão e que a Igreja fiel não será provada.

Não podemos olvidar que ajudar o próximo é uma forma bíblica de usufruir as bênçãos.

Notas
[1] Exemplos de igrejas históricas são Batistas, Presbiterianas, e Pentecostais clássicas são as Assembléias de Deus, embora a nomenclatura seja falha, pois há históricas e pentecostais debandando-se para o neopentecostalismo.
[2] Exemplo clássico de igreja neopentecostal é a Universal do Reino de Deus IURD. No entanto, a despeito do uso da palavra igreja, não considero igreja evangélica, pois a própria igreja evita tal identificação.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Introdução ao Livro de Juízes

I) Síntese do livro

1. Autoria
Conquanto não se conheça a autoria do livro, o Talmude atribui a Samuel. Provavelmente ele escreveu porções deste livro.
Os juizes exerceram a função de liderança civil e militar e não necessariamente jurisdicional, pelo que julgavam as questões civis e libertavam o povo dos opressores. Moisés instituiu a nomeação de juízes Ex 18.13-27, Dt. 16.18.

2. Data
O livro de Juízes foi escrito por volta de 990 a.C, antes da conquista de Jerusalém por Davi.
Os acontecimentos desse livro reportam-se ao ano de 1380 a 1050 a.C, e versam sobre a crise política, moral e espiritual de Israel, intermediando a conquista da Palestina até o começo da Monarquia.

3. Breve Sumário histórico
Nesse período a nação de Israel assemelhava-se a uma confederação, cujas tribos constituíam as unidades federativas. Não havia uma liderança central forte. E o decurso desse período denota a carência de uma liderança pujante, estável e espiritual.
Após a liderança de Josué, restaram alguns grupos cananitas na terra prometida, cuja conquista completa caberia às tribos de Israel. Contudo estas não prosseguiram na conquista segundo a determinação de Deus.
O povo de Israel não cumpriu o mandado de Moisés, a saber, o de destruir todos os Cananitas. Essa rebelião custou caro aos israelitas, porquanto foram amiúde atacados e subjugados pelos inimigos. Se obedecessem a ordem divina jamais enfrentariam essas crises.
Por conseguinte, houve uma instabilidade espiritual no meio do povo. Sucedeu discórdias entre as tribos, desorganizações, que culminaram em diversas guerras internas. Ora o povo aproximava-se do Senhor, ora afastava-se. Cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos (17.6).
O livro de Juízes se distingue do livro de Josué, enquanto este retrata as vitórias do povo de Deus em função da obediência, aquele salienta as derrotas do povo de Deus em virtude da desobediência.
O último capítulo desse livro destaca a profunda apostasia do povo, ao narrar a idolatria do levita, descendente de Moisés (18.30), depravação e crueldade da tribo de Dã, homossexualismo, estupro, prostituição, adultério e homicídio. Algo que jamais ocorrera em Israel.

4. Esboço do Livro
I- O contexto do Período dos Juízes 1.1-3.6
II- A história do Período dos Juízes 3.7-16.31
III- A apostasia do Período dos Juízes 17.1-21.25

II) Pressupostos do trabalho
Embora seja redundante – estudando no SBPV e fazendo um trabalho direcionado ao SBPV – é pertinente frisar que o autor do trabalho advoga pela autoridade e inerrância das Escrituras Sagradas, sendo, portanto, histórica e teologicamente fidedigna.
O livro objeto do presente estudo é inspirado por Deus (2Tm 3.16). E possui o escopo histórico-redentivo. De sorte que nem é um livro histórico no sentido moderno e ocidental e tampouco um livro puramente espiritual sem veracidade histórica.

III) Cronologia do Livro
Antes de adentrar em qualquer assunto acerca da historicidade do livro, será imprescindível fixar a cronologia do livro, visto que a partir da cronologia perfilhada será possível traçar o respectivo paralelo com dados externos do livro.
Desde já torna-se mister ressalvar que a especificação de datas não é tarefa fácil, sendo pertinente não olvidar as palavras do insigne mestre Carlos Osvaldo Pinto em suas sempre elucidativas e costumeiras notas de rodapé: “A cronologia de Juízes é extremamente complexa e ninguém detém o monopólio da verdade” (PINTO, 2006, p. 221).
O livro cobre um período bem amplo da história de Israel, a saber, aproximadamente 300 anos. Como é possível chegar a esse período? Haja vista o pressuposto perfilhado pelo autor, os textos de 1Re 6.1 e Jz 11.26 são literais, ipsis litteris.
O primeiro texto assevera que no ano quarto do reinado de Salomão o povo de Israel havia saído do Egito há 480 anos[1]; o segundo afirma que no período de Jefté, o povo já ocupava a terra há 300 anos. É pacífico que o reino se dividiu no ano 930 a.C. É possível chegar a essa data, por exemplo, em virtude do cotejo das listas de limmu ou epônimos, listas assírias contendo a história do império de 893 a 666 a.C, com textos históricos e listas de reis. Por conseguinte, fazendo-se uma contagem decrescente, de modo a computar-se 116 anos para Salomão (36 anos, 1Re 11.42), Davi (40 anos, 1Re 2.11), Saul e seus sucessores (40 anos, At 13.21), consegue-se datar aproximadamente os seguintes períodos: a) o período do êxodo aproximadamente em 1445 a.C, b) da ascensão de Samuel, aproximadamente em 1.050 a.C.
No entanto, a soma total do período dos juízes totaliza aproximadamente 410 anos; tempo incompatível com a cronologia apontada nos textos de 1Re e Jz, que possibilitariam um tempo de 300 anos para o período dos juízes.

Portanto, como harmonizar os períodos descritos no livro de Juízes com os textos citados? Uma solução consiste em considerar que houve justaposição de juízes, de modo que houve juizados concomitantes, por exemplo, o juizado de Tola e Jair seriam concomitantes, bem como o de Jefté, Ibzã, Elom, Abdom e Sansão, todos perfazendo 40 anos correspondendo ao período dos filisteus.

Conforme dito alhures, a especificação de datas é muito difícil ou quase impossível. Com efeito, ninguém detém o monopólio da verdade. Há carência de dados específicos. O texto bíblico não informa o tempo de duração da liderança de Josué. Somente menciona que no tempo da conquista Calebe estava com 85 anos e tinha 40 quando foi enviado como espia (Js 14.7,10).
Até entre os conservadores há discrepâncias. Por exemplo, Archer[4] defende que o início dos acontecimentos é datado em 1381, ao passo que Merrill[5] defende o período de 1360-1350. Todavia isso verifica-se em função do escopo teológico do livro.
Uma proposta de adaptação, consiste em considerar que “a opressão amonita seguiu-se ao juizado de Jair, que a opressão sob Jabim aconteceu nos anos finais do juizado de Eúde, e que partes de anos são contadas como anos inteiros”[6].
Por outro vértice, Archer e Merrill propõem que Jefté e Sansão foram contemporâneos, pois a opressão amonita coincidiu com a dos filisteus. O texto de Jz 10.7 “indica claramente que Sansão e Jefté devem ter sido contemporâneos, sendo que a opressão dos amonitas e a dos filisteus ocorreu aproximadamente na mesma época”[7]. Analisando Jz 13.1, Merrill conclui que “Juízes 13.1a. serve como uma ponte literária que conduz à primeira referência, e não pretende sugerir uma seqüência Jefté-Sansão”[8].
Não há nada no texto que implique uma sucessão imediatamente subseqüente entre o juizado de Eúde, Sangar e o de Débora. Ou seja, o juizado de Débora poderia ter se iniciado no final do período de paz de 80 anos e durado mais 40 anos. Assim, o juizado de Débora poderia ter durado mais de 40 anos, coexistindo com um tempo de paz situado entre os oitenta. É uma sugestão.
Seja o que for, os acontecimentos descritos no livro são datados de 1380 a 1050 a.C, havendo variações que não afetam substancialmente a historicidade dos eventos.

IV) Contexto internacional
Relativamente ao império egípcio, o período dos juízes corresponde ao “período de Amarna”, cujo expressão técnica mais apropriada seria Reino Novo. Denomina-se “período de Amarna” justamente por causa das famigeradas Cartas de Amarna, consistentes em placas de barro escritas em cuneiforme oriundas dos babilônios, que trazem valiosas descobertas arqueológicas, podendo inclusive denotar o pedido de socorro dos cananeus aos egípcios em virtude da invasão dos hebreus[9] sob o comando de Josué.
Esse período marcou o enfraquecimento do império egípcio, cuja influência na Palestina estava em franca decadência.
Amenotep III se entregou à luxúria; mais preocupado com obras monumentais, erigiu o famoso templo de Amom em Luxor. Seu sucessor, Amenotepe IV, conhecido também como Akhenatem (1376-1362 a.C), direcionou seus esforços à religião, promovendo uma reforma religiosa.
Nesse ínterim, na mesopotâmia, os hurrianos prevaleceram sobre os hititas, até que Suppiluliumas conseguiu consolidar o Império Hitita, aproveitando-se da crise egípcia, e, mediante tratado político, subjugou o reino hurriano de Mitani.
Os cassitas dominavam a Babilônia, até serem destruídos pelos Elamitas. Numa das cartas de Amarna, o rei Cassita pede auxílio ao Faraó Amenotep IV contra a expansão hitita.
Na região do Líbano os amorreus, que outrora se estabeleceram como estado-tampão, servindo ora como vassalos do Egito, ora dos Hititas, foram subjugados definitivamente por Suppiluliumas, que durou até o final do século XIII a.C.
No entanto, o Egito se recuperou, de forma que Seti I conquistou a Galiléia e a Fenícia, em 1318 a.C, e derrotou os hititas. Três anos depois, celebrou um tratado com Mursilis II, de sorte que a Síria ficou com os hititas, ao passo que a Palestina e a Fenícia com os egípcios.
No ano de 1296 a.C, sucedeu a famosa batalha de Kadesh entre hititas governados por Muwattalis e egípcios governados pelo notável Ramsés II, sendo por este quebrado o tratado de paz anterior.
Em 1279 a.C, após longa batalha sangrenta sem um vencedor, o hitita Hattusilis III celebrou um tratado de paz com o egípcio Ramsés II.
A paz foi mantida até o declínio do império hitita. A leste os hititas enfrentavam a crescente ameaça assíria e a oeste lutaram contra uma horda de invasores bárbaros.
Esses invasores bárbaros conquistaram Creta em 1.200 a.C. Por conseguinte, os filisteus foram forçados a se deslocarem para o oriente, estabelecendo-se na costa Palestina.
Os povos do mar, identificados como filisteus, tentaram invadir o Egito nos dias de Merneptá (1234-1225 a.C), mas foram derrotados, instalando-se em Canaã. A vitória egípcia deu ensejo à famosa Estela de Israel, em que se menciona pela primeira vez na história extrabíblica o nome Israel.
Também sob Ramsés III (1197-1165 a.C), uma nova horda de povos do mar ou filisteus foram repelidos do Egito, consolidando-se na Palestina.
Uma questão intrigante é o silêncio eloqüente do Livro de Juízes a respeito das incursões e domínio egípcio na Palestina. No entanto, se se ater ao propósito histórico-redentivo do livro, essa omissão deixa de ser grave. Esses episódios não tiveram pertinência teológica, conquanto fossem historicamente relevantes. Ademais, há uma explicação geográfica, a saber, os egípcios não tiveram contato com os israelitas visto que estes habitavam nas colinas e montanhas, ao passo que aqueles atravessavam as planícies e vales.
Todavia, as opiniões não são uníssonas, há quem defenda que os egípcios eram aliados dos hebreus, não obstante toda opressão e incursões, de modo que o autor do livro de juízes não quis relatar tal desavença[10].
Os cananeus se organizavam na forma de cidades-estado e cultuavam geralmente Baal e Astarote.
Astarote é o plural de Astarte, uma deusa adorada pelos cananeus. Era a deusa mãe, relacionada à fertilidade, amor e guerra. Essa deusa equivale à Ishtar, deusa da Mesopotâmia, oriunda do sincretismo acádico, que, por sua vez, é identificada com Inanna, deusa mãe da Suméria. Baal, cujo significado é senhor, possuidor ou marido, é o grande deus dos cananeus relacionado à fertilidade.
Os cultos cananeus eram caracterizados pela ubiqüidade dos altos e promiscuidade. Os outeiros eram os locais apropriados para a adoração. Cada outeiro poderia se tornar num local de adoração a Baal. Nos cultos havia muita orgia. Era uma forma de representar o relacionamento sexual dos deuses, com o objetivo de alcançar a fertilidade da terra e das criações.
Nos cultos cananeus também havia sacrifício de crianças.
O domínio da Palestina não estava consolidado nas mãos de algum império, porquanto os impérios poderosos da época, Hitita e Egípcio, não detiveram o controle definitivo e perene da região, justamente porque havia constantes embates e disputas maiores, proporcionando liberdade para que os novos ocupantes israelitas pudessem habitar naquela terra.
Por outro vértice, a ocupação israelita esteve restrita às montanhas, de forma que os vales permitiam o acesso dos egípcios e demais habitantes da Palestina.

V) Contexto Nacional
O grande libertador, Moisés, e seu fiel sucessor, Josué, precederam os juízes. Após a geração do notável líder e general Josué, a unidade de Israel bem como a religiosidade da nação entrou em colapso.
O que se observa claramente no livro de Juízes é a infidelidade da nação, que amiúde retornava às práticas pagãs, idolatrando os deuses cananeus, Baal e Astarote. Seguidamente, Deus enviava a punição, de sorte que o povo se arrependia, clamando ao Senhor. Deus, em sua riquíssima misericórdia, atendia as súplicas, propiciando livramento, por meio de juízes. Esse ciclo se repete no livro.
Abalando-se o alicerce da nação, qual seja, a aliança com Deus, a política entrou em colapso. Não havia unidade política entre as tribos, pelo contrário, se vislumbra dissensões resolutas entre algumas tribos, culminando até em guerras, e neutralidade em outras.
Isso foi reflexo da falta de uma liderança pujante, espiritualmente dedicada ao Senhor. O livro de Juízes não vincula o caos com a mera ausência de um monarca. Indubitavelmente, a ausência de um líder espiritual contribuiu, mas em suma a raiz está na desobediência do povo. Contudo, a obediência do povo está atrelada a um pastor, líder, rei que conduziria o povo à retidão como foi o rei ideal Davi, prefigurando o Rei dos reis, o Messias, Jesus!
Todavia, essa desagregação tem sido entendida com uma anfictionia, ou seja, uma federação de tribos. Contudo não concordamos com isso, com efeito, “o cenário de uma federação tribal frouxamente organizada, mal capaz de reunir seus membros em uma emergência de guerra (cf. Jz 5.16, 17), se encaixa melhor no livro do que uma liga bem organizada de cidades-Estado, conforme exibida pelos filisteus”[11] .

VI) Comentários dos capítulos

1. Capítulo 1-2
Após a morte de Josué[12], o povo de Israel continuou as incursões contra os habitantes da Palestina. No entanto, apenas se preocuparam com a estratégia militar, porquanto buscaram ao Senhor objetivando saber quem deveria partir para o ataque primeiro (v. 1).
Não se preocuparam em clamar ao Senhor pedindo um líder, um sucessor de Josué. Isso teve conseqüências negativas. Deus respondeu a oração na medida do interesse do povo. Somente em momentos de opressão o clamor do povo se intensificou, de modo que o Senhor levantava juízes ou líderes.
Naquele momento, a fidelidade do povo estava atrelada a uma liderança eficaz. À medida que o povo se desviava, o governo entrava em colapso, se desestruturando completamente.
Um outro erro foi a não expulsão dos povos restantes que habitavam na Palestina. Isso culminou num sincretismo religioso, resultando na quebra da aliança. Moisés já havia alertado o povo sobre a opressão advinda da não aniquilação dos habitantes da Palestina (Nm 33.55, 56). Em vez de aniquilarem os cananeus, preferiram torná-los tributários. O que parecia lucro se tornou um enorme prejuízo.
Assim sendo, o primeiro capítulo serve de base para o livro. Isto é, o que aconteceu no livro é resultado do que ocorreu com a geração que sobreviveu após a morte de Josué e com a subseqüente. A primeira não expulsou completamente os cananeus. A segunda não conheceu ao Senhor, tornando-se presa fácil do sincretismo religioso.
A tribo de Judá e Simeão pelejaram contra os cananeus, porquanto agora o inimigo não era mais os amorreus, mas os cananeus. Prenderam o rei cananeu Adoni-Bezeque, e tomaram Jerusalém.
O texto bíblico descreve uma prática comum no Antigo Oriente Médio: cortar os polegares das mãos e dos pés. Isso incapacitava as pessoas para o serviço militar.
Mas Jerusalém não era controlada pelos jebuseus, sendo conquistada por Davi (2Sam 5.6)? O próprio versículo 21 não contradiria o versículo 8? Jz 1.8 apenas relata que naquele tempo Judá assumiu o controle de Jerusalém, não mencionando, contudo, que, posteriormente, perdeu-o para os jebuseus. Ademais, o v. 8 não relata um controle total e perene da cidade. Portanto, tudo indica que a vitória descrita no v. 8 foi apenas parcial não implicando ocupação completa e exclusiva.
A tribo de Judá obteve vitórias parciais, pelo que só ocupou a região montanhosa, ao passo que não conseguiu ocupar o vale, porquanto os moradores possuíam carros de ferro. Os acessórios, como o eixo, seriam de ferro, ao passo que a carcaça seria de madeira.
Como os cananeus poderiam ter usado carros de ferro se a Idade do Ferro se iniciou por volta de 1200 a.C.? A cronologia adotada para esse relato não estaria defasada? A Idade do Ferro não significa que não houvesse qualquer uso pontual e localizado desse material. A propósito, os hititas já dominavam essa tecnologia no início do século XIV a.C, de sorte que os cananeus poderiam ter importado tal técnica[13].
Halley pondera que as escavações denotaram que havia muitas relíquias de ferro na Filístia no ano de 1.100, todavia nenhum artefato de ferro na região montanhosa da Palestina até 1.000[14].
As famosas cidades de Gaza, Ascalom e Ecrom foram conquistadas por Judá[15] (1.18), mas no ano de 1200 a.C os povos do mar, a saber, a segunda leva de filisteus, ocuparam essas cidades, estabelecendo suas cidades-estado.
As demais tribos, Benjamim, Manassés, Efraim, Zebulom, Aser, Naftali e Dã, também não conseguiram expulsar e aniquilar totalmente os cananeus. Repise-se que esse relato consiste no prelúdio do caos.
Somente a tribo de Issacar não foi mencionada. Talvez porque naquele período a tribo ainda permanecia remissa em conquistar sua herança (Js 18.3), ou estivesse se amalgamado com as demais (Jz 10.1).
A terra dos hititas mencionada no v. 26 refere-se ao território situado na Síria, inferindo que os arameus estavam sob o poderio ou influência hitita.
O capítulo 2.1-7 relata uma teofania em que o Anjo do Senhor aparece ao povo e repreende-o por não ter aniquilado os habitantes da Palestina, alertando sobre a futura opressão que afligiria o povo. Durante esse episódio Josué ainda estava vivo.
Imediatamente após a morte de Josué e da geração que vivia nos seus dias, a nova geração apartou-se da fé verdadeira, adorando Baal e Astarote (2.13).
Em seguida, o restante do capítulo 2 resume todo o livro de Juízes, descrevendo o ciclo repetido de apostasia, arrependimento, clamor e libertação.

2. Capítulo 3
Antes de relatar a primeira opressão, o livro especifica ou reitera que o povo de Israel habitava junto a outros povos ou fazia fronteira com eles, com o objetivo de provar o povo de Deus.
Os filisteus que habitavam nas montanhas do Líbano até à entrada de Hamate são oriundos da primeira leva de povos do mar que habitaram na Palestina, provavelmente nos dias do Faraó Merneptá.
Os hititas também habitavam no meio do povo de Israel. Esses hititas conseguiram se consolidar na região e habitavam mais ao norte de Israel em decorrência possivelmente da estabilidade e prosperidade do império hitita sob o governo de Suppilluliumas (1380-1346 a.C).
A primeira opressão foi levada a cabo pelos arameus, mais especificamente pelo rei da Mesopotâmia (em hebraico Arã-Naharaim, Arã dos dois rios), Cusã-Risataim. Conquanto a Mesopotâmia fosse controlada nessa época pelos hititas, conflitos com o reino amorreu de Mitani e com os assírios permitiram que os arameus localizados na Síria pudessem proceder a conquistas independentes ou até mesmo capitaneados por Suppilluiumas.
Nessa época o Egito não exercia alguma influência na região.
Todavia, a pessoa de Cusã-Rizataim não é uníssona, pelo que certos eruditos identificam-no com “um rei hitita que anexara o norte da Mesopotâmia, região também conhecida como Mitani, tendo ampliado seus domínios até o onterior da terra de Israel”[16].
Após o clamor do povo, Deus levantou o juiz Otniel para libertar o povo daquela opressão que já durava oito anos.
Esse juiz libertou o povo, de forma que o povo teve paz por quarenta anos.
Constata-se que os juízes mencionados nesse livro não exerciam exclusiva ou necessariamente a função jurídica. Não eram reis stricto sensu. Uma forma de classificá-los foi usar esse termo. A propósito, textos antigos cananeo-ugaríticos usam o mesmo termo para reis.
Novamente o povo caiu na apostasia, de modo que foram subjugados pelos moabitas governados por Eglon. Os moabitas fizeram uma coalizão com nações vizinhas, a saber, os amonitas (nação irmã) e os amalequitas, um povo tribal descendente de Esaú que habitava no Negueb. A opressão durou 18 anos. Tal opressão foi localizada, restrita à região de Jericó (cidade das palmeiras).
Em virtude do clamor do povo, Deus escolheu Eúde para libertá-lo. Posteriormente, sobreveio um período de paz totalizando 80 anos. Essa duradoura paz coincidiu com o tratado de paz estabelecido entre os hititas e egípcios no ano de 1315 a.C até sua ratificação.
Com efeito, Deus usou esse momento para proporcionar paz ao seu povo eleito. No sentido de entender que a situação era providencial convém citar o elucidativo comentário:

Nem os egípcios nem os heteus parecem ter compreendido sua função providencial, mas permanece o fato que os anos durante os quais cada um deles conseguiu manter a paz na Palestina corresponderam aos próprios períodos que Deus havia assinalado proporcionando ‘paz’ ao Seu povo[17].

Relativamente ao juizado de Sangar, não houve qualquer datação, mas tão-somente é mencionada sua façanha contra os filisteus, com vistas a encorajar os leitores a lutarem contra os inimigos, inclusive contra os mesmos.[18] É possível que os seiscentos filisteus feridos por Shangar (Jz 3.31) fossem povos do Mar penetrando através do norte[19]. O texto bíblico não descreve com detalhes, mas os filisteus fizeram incursões contra Israel antes de Sansão e Samuel. Está em pauta a primeira leva de filisteus, ocorrida em 1230 a.C, os quais foram rechaçados pelos egípcios, vindo então a ocupar a Palestina.

3. Capítulo 4
A próxima apostasia resultou numa opressão violenta e dura. Jabim, rei de Hazor, cananeu, liderava a opressão que durou vinte anos e afetou basicamente as tribos do norte de Israel.
Obviamente esse Jabim não é o mesmo destruído por Josué (Js 11). O nome Jabim era um título e não um nome pessoal. E, o tempo da destruição de Hazor por Josué até o juizado de Débora é um lapso razoável para a reconstrução da cidade.
A cronologia baixa do Êxodo tem dificuldade para encaixar essa destruição e reconstrução de Hazor.
A vantagem dos cananeus em relação aos israelitas pode ser medida pelos novecentos carros de ferro que o rei possuía (4.3).
Esse texto revela um dado importante, a saber, o uso do ferro, de modo que é razoável fixar essa data entre 1240 e 1220, porquanto o uso freqüente do ferro só sucedeu em Canaã a partir de 1200.
Deus usou uma juíza para libertar o povo, visto que Baraque não quis lutar sem a presença dela. Débora julgava o povo de Israel naquele período. A sede da jurisdição ficava entre Ramá e Betel, nas montanhas de Efraim, mais ao norte de Israel.
Outrossim, quem deu o golpe final no capitão do exército de Hazor, Sísera, foi outra mulher, uma singela e destemida esposa de um queneu, filho de Hobabe, sogro de Moisés: Jael.
Os queneus habitavam junto com o povo de Israel (1.16), uma vez que Moisés e seu sogro permaneceram juntos após o Êxodo e durante a caminhada no deserto, entrando na terra prometida.
Eles laboravam com metais. E, possivelmente, Héber, se aliou a Jabim, a fim de estar mais seguro, ao invés de permanecer com os israelitas. O comentário da Bíblia NVI afirma que Héber anunciou a Sísera que Baraque havia subido ao monte Tabor.
O cântico de Débora (5.20-21) indica que uma inundação do rio Quisom auxiliou na vitória.
Tudo indica que a jurisdição de Débora foi nacional e não localizada, conquanto o norte de Israel sofresse mais com a opressão. A priori, Débora convocou as tribos de Zebulon e Naftali para pelejarem contra os cananeus. Todavia o cântico de Débora e Baraque denota que outras tribos foram convocadas, contudo não atenderam tal convocação. As tribos que atenderam a convocação foram: Efraim, Benjamim, Maquir de Manassés (Js 17.1), Issacar. A tribo de Rúbem apenas deliberou, não participando. Gade, Aser e Dã não participaram das lutas. Judá e Simeão tampouco foram mencionadas.
Esse texto denota a falta de unidade na nação de Israel. Já pode ser vislumbrada a divisão da nação. O isolamento de algumas tribos e a rivalidade entre outras contribuíram para falta de unidade política na nação de Israel.
O caos político de Israel provocado pela idolatria causava inseguranças e instabilidades, sendo um ambiente propício para a proliferação de bandidos e salteadores que atacavam os transeuntes. Jz 5.6 revela implicitamente a presença desses salteadores que deixavam as cidades desertas.
Após a vitória de Débora, a terra experimentou um período de paz que durou 40 anos. Esse período coincide com o governo de Ramsés III, o último Faraó de destaque.

4. Capítulo 6-8
A opressão sob os midianitas (uma povo que tinha afinidade com os ismaelitas, descendentes de Ismael, filho de Abraão) durou sete anos. Conquanto não fosse um período relativamente longo, foi tempo suficiente para inspirar o medo e o terror no meio da nação de Israel, em virtude das fortes e arrasadoras incursões perpetradas pelos inimigos, que se aliaram com os amalequitas e povos do oriente.
Com vistas a permanecerem em locais seguros e garantir o pouco de alimento que sobrava, os filhos de Israel precisavam se abrigar em covas situadas nos montes. O povo tinha de improvisar se quisesse guardar o que sobrava. Até o lagar foi usado para malhar o trigo. Isso mostra a constante ameaça que o povo sofria além dos saques que já haviam ocorrido, pois somente uma pouca quantidade de trigo poderia ser debulhado num lagar. Geralmente, o trigo era debulhado por animais e num lugar aberto que tivesse ventilação apropriada para separar a palha do trigo.
Deus levantou a Gideão para livrar o povo da opressão. O pai de Gideão era um adorador de Baal. Possuía um altar dedicado ao ídolo, que ficava junto a um bosque.
A luta foi travada no vale de Jezreel. Gideão convocou as tribos de Manassés, Aser, Zebulom e Naftali. Pelas tribos convocadas verifica-se que a opressão não envolvia todo o território nacional, mas aquela região.
A consulta dirigida ao Senhor por meio de um velo de lã informa o grau de superstição de Gideão, que mesmo tendo uma experiência com o Anjo do Senhor, ainda teve dúvida, consultando ao Senhor através daquele meio. Poderia ter consultado ao Senhor através do Urim e Tumim, que era uma prática legitimada pelo Senhor.
Gideão e seus famosos trezentos soldados conseguiram derrotar os midianitas. Estes tentaram fugir por um caminho que atravessa a tribo de Efraim. Então, Gideão convocou a tribo de Efraim, a qual conseguiu prender dois príncipes dos midianitas.
Uma contenda fútil surgiu entre a tribo de Efraim e Gideão, que era da tribo de Manassés (Js 17.2). É pertinente repisar que no período de Juízes as tribos de Israel não possuíam coesão e unidade, pelo contrário, eram marcadas pelas intrigas, animosidades, inércia e muita falta de patriotismo, como se cada tribo fosse autônoma e independente das demais. Mais adiante o autor de Juízes ressalvará que a falta de uma liderança nacional influente que agregasse toda a nação, constituindo um reino coeso e unido, ou seja, a falta de um rei, causava esse caos, de forma que cada pessoa “fazia o que parecia bem aos seus olhos” (17.6; 18.1). O interesse local e individual preponderavam sobre o interesse da nação, das tribos, do povo de Israel.
Isso é notado na forma como as cidades de Sucote e Peniel, pertencentes à tribo de Gade, trataram a Gideão, quando este estava no encalço dos midianitas; pedindo alimento para saciar seu exército, foi-lhe negado pelas cidades (8.5-17). Como conseqüência, Gideão lhes infligiu um castigo severo, matando alguns de Peniel.
Em função desse estado desagregador e caótico, muitos críticos tendem a ver essa situação como o status quo ante, ou seja, este era o estado de Israel: uma anfictionia, composta de várias tradições e tribos cujas origens não são as mesmas, porém que se agregaram e aos poucos se constituíram um reino.
Tal assertiva é totalmente falsa e não passa de mera teoria como a da evolução, sem qualquer evidência nesse sentido. É o mesmo que olhar para o macaco e por causa de sua semelhança com o homem deduzir que este veio daquele. A aparência não implica descendência. O fato de Israel ter tomado a forma de uma anfictionia, com costumes e interesses distintos não significa que tiveram tradições e origens distintas
A vitória sobre os midianitas foi tão extraordinária e salutar que o povo de Israel viu na pessoa de Gideão um bom partido para governar Israel, de modo que o pedido foi: “governa ( מְשָׁל ) sobre nós”. Em que pese não haver um líder nacional, o povo sentia essa carência. Todavia, ao invés de buscarem esse rei pela via da humilhação e fidelidade à aliança, preferiram o caminho mais curto e simplista do mero pedido.
Conquanto Gideão tivesse recusado a liderança, fez um objeto de culto para reunir o povo e tentar preservar a unidade em torno daquele objeto. Mas isso foi um tropeço para Gideão, pois a nação de Israel se dirigiu ali para praticar rituais cananitas que envolviam a prostituição ( hn*z* ).
Nos dias de Gideão a terra sossegou 40 anos.

5. Capítulo 9-10
Aproveitando-se da morte de seu pai que recusou a liderança, Abimeleque o usurpador e conspirador forjou uma ocasião propícia para se tornar rei. Abimeleque, cujo nome significa “meu pai é rei”, uma alusão a Deus como rei, não seguiu o exemplo de abnegação de seu pai Gideão, e buscou o reinado, matando seus irmãos.
Naquele momento, o povo da região de Siquém adorava um tal de Baal-Berite, senhor da aliança, que até possuía uma casa. É notório o sincretismo religioso. YHWH, o Deus da Aliança celebrada com Abraão, é identificado como Baal.
A própria cidade que apoiou Abimeleque se voltou contra ele por influência de Gaal. Por isso, Abimeleque pelejou contra Siquém, matando várias pessoas. Todos siquenitas que se esconderam na casa de Baal-Berite foram mortos. Mas Abimeleque foi ferido por uma mulher, e para resguardar sua honra e não morrer pelas mãos de uma mulher pediu a seu moço que o matasse, o que aconteceu.
Mais uma vez se constata a crise espiritual e social da nação. Idolatria e guerras internas sempre estavam presentes. Os israelitas idólatras se esconderam na casa do ídolo acreditando que o falso deus os protegeria e que o próprio Abimeleque respeitasse aquele lugar santo, porquanto se costumava respeitar os lugares santos, não profanando-os com a morte de pessoas. Mas nada disso aconteceu.
Fica evidenciado que a religião de Abimeleque era o seu próprio interesse e sua avidez pelo poder.
Após a queda de Abimeleque, os juízes menores, Tola de Issacar, Jair de Gileade ou Manassés, entram em cena.
Tola sucedeu Abimeleque. O juizado de Tola está relacionado com a morte de Abimeleque, de modo que sua missão de libertação estava relacionada com o caos produzido por Abimeleque.
Merril propõe que o juizado de Jair era concomitante com o juizado de Jefté, uma vez que os locais eram distintos, propugnando a data de 1094-1072 para Jair e 1106-1100 para Jefté.
Uma nova apostasia se inicia, e desta vez o sincretismo foi bem abrangente, incluindo, além das divindades cananitas, as divindades oriundas dos sírios (arameus), moabitas, filisteus e amonitas, entre as quais se destacam: Moloque, divindade nacional amonita; Dagom, divindade filisteu; Camos divindade moabita; Hadade, Mote, Anate e Rimom, deuses de Arã.
Como resultado natural sobrevieram as opressões sob os amonitas e filisteus, cuja duração totalizou 18 anos. Essas duas opressões foram concomitantes. Os amonitas eram responsáveis pela região nordeste ao passo que os filisteus pela região sudoeste de Israel.
Deus levantou Jefté para conter a opressão amonita e Sansão para deter a opressão filisteu.
A opressão filisteu só foi suprimida completamente nos dias do rei Davi.

6. Capítulo 11 e 12
A pérola do capítulo 11 está no versículo 26, em que Jefté, à guisa da diplomacia, tentou sem êxito persuadir os amonitas a abortarem a opressão, visto que a terra pleiteada por eles já estava com Israel há trezentos anos. Os amorreus haviam conquistado aquela terra dos amonitas; em seguida os israelitas conquistaram-na dos amorreus e não dos amonitas. Assim, o pleito de Amom era improcedente. Uma vez que Amom não reclamou a terra nos dias dos amorreus, e tampouco nos dias da conquista israelita levada a cabo por Moisés, agora qualquer reclamação seria inoportuna.
A menção de Jefté, de que Israel estava naquela terra há trezentos anos, serve de marco para se fixar a cronologia dos juízes, ainda que de forma lacônica, sem maiores detalhes e precisão.
A mensagem enviada por Jefté se coaduna com a correspondência internacional da época.
O povo de Gileade se reuniu em Mizpá à busca de um líder. Observe-se a carência de uma liderança. Jefté, gileadita e filho de uma prostituta, liderou a libertação, sendo, inclusive, tomado pelo Espírito do Senhor.
Jefté fez um voto temerário, interpretado por muitos como um sacrifício da própria filha. Embora o precedente de Jefté não fosse tão bom, filho de uma prostituta, amigo de homens levianos, pertencente a um período de apostasia e caos espiritual, político e social, Jefté não sacrificou sua filha, mas tão-somente a entregou à castidade perpétua, haja vista o próprio comentário do autor sagrado, de que ela não conheceu homem e chorava pela virgindade. Ademais, não há qualquer censura mais veemente ao voto. Caso houvesse sacrifício humano, o autor sagrado faria algum comentário mais enfático sobre tão terrível abominação. Era de se esperar o mesmo comentário de Jz 19.30: “Nunca tal se fez, nem se viu desde o dia em que os filhos de Israel subiram da terra do Egito, até ao dia de hoje; ponderai isto, considerai e falai”.
Após a vitória sobre os amonitas, a tribo de Efraim contendeu contra Jefté. Em vez de usar da mesma diplomacia, Jefté partiu para a batalha. Mais uma batalha ocorreu entre os israelitas, agora, se tornando mais extensa, pois envolveu duas tribos. Nos dias de Abimeleque a batalha envolveu apenas cidades.
Constata-se que a nação de Israel caminhava para o caos espiritual, político e social. A cada dia a situação se agravava um pouco mais. A necessidade de um líder se tornava mais premente. Isso explica a euforia do povo pedindo um rei nos dias de Samuel.
Após Jefté, Ibzã de Belém julgou Israel por sete anos. Em seguida, Elom de Zebulom julgou a Israel dez anos, sendo sucedido por Abdom de Efraim cujo juizado durou oito anos. Merril ressalva que estes juizados “podem ter sido simultâneos, totalmente ou em parte”[20] O texto indica uma sucessão cronológica e não uma concomitância entre os juizados. A justaposição de juízes nesse momento não parece plausível.

7. Capítulo 13-16
Sansão foi o juiz incumbido de libertar o povo de Israel da opressão filistéia. Os filisteus oprimiram Israel durante quarenta anos. Os atos miraculosos e extraordinários ocorridos na vida de Sansão denotam a capacitação outorgada pelo Espírito do Senhor. No entanto, suas falhas e pecados abriram uma brecha em sua vida que foi bem aproveitada pelo inimigo, de modo que Sansão não conseguiu libertar Israel completamente do jugo filisteu, contudo impediu a consolidação da opressão e conquista filistéia.
Sansão quebrou seu voto de nazireu previsto em Nm 6, comendo alimento impuro, e permitindo que seu cabelo fosse cortado. Seu envolvimento com mulheres filistéias foi um tropeço.
Jz 14.10-12 relata a participação de Sansão em uma festa de casamento e usando enigmas. Festas e enigmas eram práticas comuns no Antigo Oriente. As festas duravam sete dias, e possuíam convidados especiais do noivo, que eram responsáveis pela segurança da festa.
O fogo ateado por Sansão nas plantações dos filisteus denota que era uma época de seca, visto que a colheita do trigo era feita nesse período, sendo muito propício para queimadas. Sansão usou raposas ou chacais. Até hoje esses animais são encontrados em Israel.
Finalmente, os filisteus conseguiram prender Sansão, explorando a dificuldade de Sansão com o sexo oposto. Sansão cedia facilmente aos apelos “românticos” de sua companheira, fazia tudo para provar seu amor. Este costume é tão antigo e atual quanto se imagina. Desde a criação até hoje as mulheres usam essa tática para conquistarem seus companheiros. E muitos homens continuam caindo nessa armadilha.
Após prenderem Sansão, os filisteus furaram os olhos dele, conforme o costume de tratar os prisioneiros de guerra. Os filisteus humilharam Sansão, pondo-o para girar um moinho de pedras que servia para moer grãos. Esse tipo de trabalho era humilhante para um líder, pois era trabalho de mulher e de escravos (Ex 11.5; Is 47.2)
Como gratidão, ofereceram um grande sacrifício ao seu deus, Dagom, visto que acreditavam que Dagom entregara Sansão nas mãos dos filisteus.
Dagom era a principal deidade dos Filisteus, embora adorassem as mesmas divindades cananéias. O mesmo fenômeno havido entre os acádicos sucedeu entre os filisteus: houve sincretismo religioso, e a religião era menos regionalizada e mais nacionalizada.
O comentário da Bíblia de Estudo NVI acrescenta:

Embora os filisteus adorassem a maioria dos deuses de Canaã, suas deidades prediletas parecem ter sido Dagom e Baal-Zebube. O nome Dagom é igual a uma palavra hebraica que significa “grão”, o que faz supor que era uma deidade da vegetação. Era adorado na Babilônia já no segundo milênio a.C. Baal-Zebube era adorado em Ecrom (2Rs 1.2,3,6,16). O nome significa “senhor das moscas”, uma alteração deliberada feita pelos seguidores do Senhor (Iavé) para ridicularizar e protestar contra a adoração a Baal-Zebul (“Baal, o príncipe”), nome conhecido nos textos cananeus antigos (v. Mt 10.25; 12.24).[21]

Ainda assim, pela graça de Deus, a oração de Sansão foi respondida, de modo que teve a oportunidade de acabar com aquele vexame, porquanto movendo as colunas do templo, derrubou-o sobre si e sobre os filisteus matando mais pessoas naquele momento que durante toda sua vida.

8. Capítulo 17-21
Estes capítulos, considerados como apêndices, retratam por meio do episódio de Mica e do levita e sua concubina o zênite da degradação israelita, de modo que ressalta a depravação total do povo de Israel.
O comentário do Novo Dicionário da Bíblia data esse acontecimento do primeiro período de apostasia de Israel, na época do juiz Otoniel. A tradição judaica concorda com tal posição.
Segundo o comentário da Bíblia de Estudo NVI, “os acontecimentos narrados se deram, segundo parece, razoavelmente cedo no período dos juízes (v. notas em 18.30; 20.1,28)”, porquanto se faz alusão ao neto de Moisés, sacerdote Finéias.
Nesses capítulos pode ser observado a assimilação da cultura cananéia pelos israelitas. Encontram-se os mais abomináveis pecados contra a Lei de Deus e Seus dez mandamentos: furto, sincretismo religioso e idolatria na família de Mica; sacerdócio corrompido do levita de Belém de Judá que vagueava pelas montanhas de Efraim; idolatria da tribo de Dã; adultério da concubina de outro levita; homossexuais maníacos e estupradores assassinos oriundos de Gideá da tribo de Benjamim.
O estupro seguido de morte da concubina do levita perpetrado pelos homossexuais maníacos de Benjamim causou espanto na nação culminando na declaração registrada em 19.30: “Nunca tal se fez, nem se viu desde o dia em que os filhos de Isarel subiram da terra do Egito até ao dia de hoje; ponderai isto, considerai, e falou”.
Somente um fato estarrecedor desse jaez mobilizou a nação como se fosse “um só homem” desde Dã até Berseba, de modo que se congregaram em Mizpá. A nação decidiu punir aqueles homens, executando-os. Assim, “unidos como um só homem”, ajuntaram-se contra a cidade de Gibeá pedindo à tribo de Benjamim que entregasse aqueles homens.
Para piorar, a tribo de Benjamim não entregou aqueles homens, pelo contrário, decidiu lutar contra as demais tribos.
Por conseguinte, mais uma luta interna assolou a nação, quase culminando na extinção da tribo de Benjamim. Mais um voto temerário foi feito agora por todas as tribos, pois juraram que não dariam mais mulheres aos Benjamitas. Dessa forma, a tribo seria extinta. Mas, para contornar esse voto temerário, à guisa do jeitinho brasileiro, permitiram que os benjamitas raptassem as mulheres de outras tribos.
Mesmo diante desse caos registrado nesses últimos capítulos, ainda é possível vislumbrar um nobre costume do oriente: a hospitalidade.

VII) Bibliografia
ARCHER, Gleason L., Jr. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4ª ed., São Paulo: Vida Nova, 2003.

BAXTER, Sidlow J.. Examinai as Escrituras. 1ª ed., São Paulo: Vida Nova, 1993, vol 2.

Bíblia de Estudo de Genebra, São Paulo: Cultura Cristã, 1999.

Bíblia de Estudo NVI, São Paulo: Vida, 2005.

Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Paullus, 1973.

Bíblia Vida Nova, São Paulo: Vida Nova, 1998.

BRIGHT, John. História de Israel. 1ª ed., São Paulo: Paulinas, 1978.

DOUGLAS, J.D.. (ed). O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed., São Paulo: Vida Nova, 1995.

ELLISEN, Stanley. A.. Conheça Melhor o Antigo Testamento. 1ª ed., São Paulo: Vida, 1991.

HALLEY, Henry H. Manual Bíblico: um comentário abreviado da Bíblia. 4ª ed., São Paulo: Vida Nova, 1994.

LEONEL, João. Teologia Bíblica dos Livros Históricos e Proféticos. São Paulo: Mackenzie, apostila da aula 5, 2008.

MERRILL, Eugene H.. História de Israel no Antigo Testamento. 1ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

MESQUITA, Antônio Neves de. Povos e nações do mundo antigo. 5ª ed., Rio de Janeiro: JUERP, 1989.

PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e desenvolvimento do Antigo Testamento. 1ª ed., São Paulo: Hagnos, 2006.

SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel. 1ª ed., São Paulo: Vida Nova, 1977.
[1] O texto da LXX traz 440. No entanto a recensão de Luciano de Antioquia segue o TM. Por tratar-se de uma voz isolada e com divergência na própria tradição do texto, o TM há de prevalecer.
[2] PINTO, 2006 p. 221
[3] DOUGLAS, 1995, p. 889
[4] ARCHER, 2003, p. 201
[5] MERRILL, 2001, p. 150
[6] PINTO, 2006, p. 221
[7] ARCHER, 2003, p. 200
[8] MERRILL, 2001, p. 178
[9] Nos textos de Amarna o povo hebreu é chamado de Habiru. Para uma discussão do termo vide Archer, 2003, p. 187-194.
[10] MESQUITA, 1989, p. 156
[11] PINTO, 2006, p. 223
[12] O aparato crítico da BHS afirma que o texto original provavelmente registraria Moisés em vez de Josué, sugerindo que Josué ainda estava vivo nessa época, combinando com 2.6 e Js 15.13. No entanto, não há qualquer indício textual objetivo dessa assertiva. Pelo contrário, todos os Mss hebraicos, LXX, Vulgata e Peshita concordam com o Texto Hebraico. Logo, à míngua de evidência, é mister rejeitar o aparato.
[13] Cf. ARCHER, 2003, p. 148
[14] HALLEY, 1994, p. 159
[15] A LXX afirma que não foi tomada. No entanto, é uma voz isolada, pelo que os demais manuscritos e traduções (e.g. Vulgata e Peshita) corroboram o Texto Massorético. Logo, não há razões plausíveis para desacreditar o TM.
[16] Schultz, 1977, p. 104
[17] DOUGLAS, 1995, p. 887.
[18] Ainda que o livro tivesse sido escrito nos dias do reinado de Davi, Israel conhecia a história de Sangar, mas nos dias de Golias ninguém se lembrou disso, com exceção de Davi.
[19] MERRIL, 2006, p. 161
[20] MERRILL, 2006, p. 178.
[21] Bíblia de Estudo NVI