quinta-feira, 4 de março de 2010

Conjunção Hebraica "E"

E ou por quê? E ou mas? Com e ou sem e?
Nossas traduções da Bíblia apresentam divergências, conquanto a essência do texto seja uníssona, de modo a não alterar a revelação de Deus, o que pode implicar um conhecimento superficial do texto. Por certo, ninguém deixará de conhecer a Deus em virtude das imperfeições de nossas traduções.
Por exemplo, em uma tradução aparece a conjunção “e”, em outra é omitida, outra apresenta “visto que”. Para o Português essa divergência parece um despautério. No entanto, o hebraico possui suas peculiaridades, como o Português em outras questões. Vejamos um exemplo prático usando o texto de Gn 18.17-19:

Então o SENHOR disse: “Esconderei de Abraão o que estou para fazer? 18 Abraão será o pai de uma nação grande e poderosa, e por meio dele todas as nações da terra serão abençoadas. 19Pois eu o escolhi, para que ordene aos seus filhos e aos seus descendentes que se conservem no caminho do SENHOR, fazendo o que é justo e direito, para que o Senhor faça vir a Abraão o que lhe prometeu”. (NVI)

17 Disse o Senhor: Ocultarei a Abraão o que estou para fazer, 18 visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra? 19 Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Senhor e pratiquem a justiça e o juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito. (ARA)

17 E disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que faço,18 visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra?19 Porque eu o tenho conhecido, que ele há de ordenar a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para agirem com justiça e juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado. (ARC)

17 Aí o Senhor Deus disse a si mesmo: “Não vou esconder de Abraão o que pretendo fazer. 18 Os seus descendentes se tornarão uma nação grande e poderosa, e por meio dele eu abençoarei todas as nações da terra. 19 Eu o escolhi para que ele mande que os seus filhos e os seus descendentes obedeçam aos meus ensinamentos e façam o que é correto e justo. Se eles obedecerem, farei por Abraão tudo o que prometi.” (NTLH)

Iahweh disse consigo: Ocultarei a Abraão o que vou fazer, já que Abraão se tornará uma nação grande e poderosa e por ele serão benditas todas as nações da terra? Pois eu o escolhi para que ele ordene a seus filhos e à sua casa depois dele que guardem o caminho de Iahweh, realizando a justiça e o direito; deste modo Iahweh realizará para Abraão o que lhe prometeu.
Isso acontece por que o hebraico do Antigo Testamento utiliza predominantemente orações simples, ligadas pela conjunção “e”, que traduz o prefixo hebraico וְ ,cuja transliteração é waw ou vav. De forma que a subordinação – orações mais complexas – não é muito usual. Não poucas vezes o hebraico usa a conjunção vav (“e”) para expressar uma relação de subordinação. Esse fenômeno – oração composta por uma relação de coordenação e oração subordinada ligada pela conjunção vav – é denominado parataxe ou estrutura paratática (Gramática Grega, Wallace, p. 657). Logo, as orações hebraicas são caracterizadas pela parataxe. Ou seja, o conectivo “e” é utilizado com o sentido majoritário de mera coordenação aditiva ou associativa de substantivos, conquanto em não poucos casos tenha sentido subordinado.
O insigne mestre, professor Dr. Carlos Osvaldo, assevera em suas elucidativas notas de rodapé:
Tal como acontece no português, em que a palavra “que” desempenha várias funções de subordinação, a conjunção וְ no hebraico desempenha uma grande variedade de papéis, englobando as duas categorias principais, coordenação e subordinação (Fundamentos para Exegese do AT, p. 136).
A citação extraída da obra de Bruce Waltke e M. O’Connor comentando sobre a conjunção vav afirma:
O hebraico bíblico frequentemente liga logicamente orações subordinadas a uma oração principal quer assindetivamente quer, mais frequentemente, sindeticamente com esta conjunção [vav].
Por conseguinte, o vav, frequentemente traduzido por “e”, pode ter outras matizes (Introdução à sintaxe do hebraico bíblico, p. 649).

Abaixo segue uma lista de possibilidades :

Mas >> conjunção adversativa
Ou >> alternativa
Portanto >> conclusiva
Cujo, a quem, o qual >> pronome relativo, aposição
Se >> condicional
Porque, pois >> causal
A fim de que, para que >> final
Embora, não obstante >> concessiva
De modo que, em razão disso, de sorte que >> consecutiva
Como >> comparativa
E >> associativo de substantivos
Isto é, qual seja, a saber >> aposição

O vav também pode significar tão-somente o início de outro parágrafo ou tema independente, como se fosse um sinal de pontuação inicial, um ponto inicial, digamos assim. A propósito, algumas traduções omitem a tradução do vav, denotando que se trata de um novo parágrafo.
É interessante notar que o próprio Novo Testamento Grego escrito por autores influenciados pela cultura hebraica, contém hebraísmos. Isto é, o conectivo grego kai, traduzido por “e”, pode ter as mesmas conotações do hebraico. Nos evangelhos de Mateus e Marcos podem ser observados essas nuanças oriundas do hebraico; em que o “e” pode ter o sentido de uma nova frase, ou até mesmo de conjunção adversativa “mas”.
À vista de todo exposto, depreende-se que a simples partícula vav, traduzida geralmente por “e” pode ter significados bem mais abrangente. Atento a isso, mesmo as traduções mais literais, como ARC e ACF , traduzem o vav por outras conjunções, embora com muito mais relutância que a ARA, NTLH e NVI.
Com efeito, a escolha do significado não pode ser arbitrária, ou dependente do pressuposto teológico do exegeta ou tradutor, pelo contrário, deve advir do contexto. O contexto indicará o significado do vav.
Por isso, advogo a tese de que uma escorreita exegese depende do conhecimento do texto original. Como perceber essas nuanças sem o texto original? Como saber se a conjunção é realmente “para que” ou “e”, ou seja, se a oração expressa propósito ou mera adição?
Aqueles que não possuem acesso ao texto original, mas querem ter uma noção do texto, com vistas a se aproximar do original, devem consultar compulsoriamente outras traduções.
Assim sendo, quando nos depararmos com alguma conjunção ou com o mero conectivo “e” em nossas traduções, antes de extrairmos nossas ilações, e expô-las à igreja, devemos certificar-nos se de fato a tradução está correta.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Descoberta da muralha do Templo do Rei Salomão


Jerusalém, 26 fev (EFE).- Arqueólogos israelenses descobriram em escavações realizadas junto à Cidade Antiga de Jerusalém os restos de uma muralha do século X a.C. que poderiam confirmar a descrição bíblica dos tempos do rei Salomão.


Uma parte da muralha, de 70 metros de comprimento e seis de altura, foi encontrada em uma local de nome Ofel, entre a conhecida como Cidadela de David e a parede sul do Monte do Templo judeu, também conhecido como Esplanada das Mesquitas muçulmana.


Empreendidas nos últimos meses, as escavações fazem parte de um projeto da Universidade Hebraica de Jerusalém, a Autoridade de Antiguidades de Israel e outras instituições, e conta com o financiamento de patrocinadores americanos.


Sua diretora, Eilat Mazar, data a muralha com base em fragmentos de vasilhas descobertas nos arredores. Segundo ela, os objetos são de tempos do reinado de Salomão, o período de maior construção até então em Jerusalém e quando foi erguido o Primeiro Templo judeu, segundo o Antigo Testamento.


"Esta é a primeira vez que se descobre uma estrutura desse período que pode ter uma correlação com as descrições das obras de Salomão em Jerusalém", afirma.


"A Bíblia conta que Salomão construiu, com ajuda dos fenícios, que eram excelentes construtores, o Templo e seu novo palácio e que os rodeou com uma cidade. O mais provável é que estivesse conectada à muralha mais antiga da Cidadela de David", explica a diretora das escavações.


No local, foram desenterradas também uma monumental guarita de vigilância de seis metros de altura e uma torre que serviria de mirante para proteger a entrada da cidade, que são características do estilo do Primeiro Templo.


Deste período datam os antigos povoados israelitas de Meguido ou Be'er Sheva, declaradas em 2005 Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).


Para a arqueóloga, os restos da muralha representam uma prova adicional da exatidão com que as sagradas escrituras descrevem o esplendor do período dos reis David e Salomão.


Ela cita o Primeiro Livro de Reis (3:1), no qual "Salomão se tornou parente do então Faraó do Egito, pois se casou com sua filha Anelise e a trouxe à cidade de David, quando terminava de construir sua casa, a casa de Jeová e os muros de Jerusalém ao redor".


As pesquisas sugerem que os restos da muralha revelam a presença de uma monarquia e que a fortaleza e forma de construção indicam um alto nível de conhecimentos de engenharia.


Os vestígios estão em um ponto estratégico, no alto do vale do Kidron, hoje limite à Cidade Antiga de Jerusalém.


"Ao comparar as últimas descobertas das muralhas e portas da cidade do período do Primeiro Templo e os restos de vasilhas encontrados no local, podemos assegurar com bastante certeza que os muros são da cidade construída pelo rei Salomão em Jerusalém, na última parte do século X a.C", afirma Mazar.


A inscrição encontrada em um fragmento de vasilha descreve: "do supervisor do pa...", que a arqueóloga acredita se referir ao "supervisor do padeiro", um oficial responsável por controlar o fornecimento de pães à corte real.


Outros fragmentos contêm as palavras "do rei", e também foram encontrados selos de cera com dezenas de nomes.


O explorador britânico Charles Warren descreveu o traçado da torre em 1867, mas sem atribuí-lo à época de Salomão, cuja monarquia ficou conhecida pelas decisões justas ou salomônicas.


Nesse contexto de difícil equilíbrio, cabe se perguntar se a Bíblia pode servir ou não de guia arqueológico, uma polêmica que enfrenta duas tendências na arqueologia israelense e especialmente incerta no que se refere às descobertas em torno do período do rei David e de seu filho Salomão.

Mazar pertence à corrente que reconhece a validade do relato bíblico, enquanto arqueólogos da Universidade de Tel Aviv acham que o Pentateuco não está isento de interesses políticos de seus autores e que as monarquias de ambos os reis não eram uma potência regional como descreve o livro sagrado. EFE
fonte: http://br.noticias.yahoo.com/s/26022010/40/entretenimento-arqueologos-encontram-jerusalem-muralha-rei.html

Essa notícia também foi veiculada pela Revista Veja, edição 2154, ano 43, nº 9 de 3 de março de 2010, p. 46:

Descobertas
ruínas de uma muralha que pode ter pertencido ao templo do rei Salomão em Jerusalém. A construção tem 70 metros de comprimento por 6 de altura e data do ´seculo X antes de Cristo. A descoberta da última semana causou espanto, pois muitos estudiosos acreditam que Salomão jamais existiu - seu reinado pertenceria ao terreno dos mitos. Novas escavações serão feitas para tentar confirmar o achado.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Por que não curto a balada?

Por que não curto a balada?
A última vez que fui numa danceteria, pulei carnaval, ou curti a balada, eu tinha uns dezessete anos; isto é, há treze anos atrás. Depois que recebi o Senhor Jesus Cristo como Salvador e Senhor de minha vida nunca mais fui a esses lugares em que as pessoas se reúnem para dançarem, beberem, e divertirem-se. Ou seja, depois que tive um compromisso genuíno de servir e obedecer ao Senhor Jesus, abandonei completamente esse ambiente.
Não fiquei triste, deprimido, melancólico, solitário, por não ir mais nesses lugares. Pelo contrário, me sinto muito melhor, não tenho mais ressaca, não acordo mais uma hora da tarde. Consegui uma linda e fiel esposa sem ir nesses lugares. Já tenho dois maravilhosos filhos. Enfim, creio que abster desses lugares foi fundamental para construir a família que tenho hoje.
No entanto, alguém pode perguntar: Mas que mal tem em ir a esses lugares? Há pecado nisso? Irei para o inferno se frequentar esses ambientes?
A resposta dessas perguntas não está com o pastor e tampouco com a igreja. Deus tem a resposta para isso. Mas Deus já falou sobre isso? Quando? Naturalmente, Deus nunca falou expressamente sobre isso, mas deixou conselhos e princípios aplicáveis a esse caso, de forma que a resposta está na Palavra de Deus, que é a Bíblia Sagrada (2Tm 3.16,17).
Nosso Deus sempre se preocupou com a santidade de seu povo, de forma que deixou vários conselhos e orientações para que seu povo jamais se afastasse do Senhor, se desviasse dos seus caminhos, se contaminasse com o pecado.
O envolvimento do povo de Deus com aqueles que não servem a Deus sempre foi tratado pelo Espírito Santo com muita atenção. Todos nós sabemos que certos ambientes e amizades influenciam-nos facilmente. Por exemplo, há um ditado popular que afirma o seguinte: “diga com tu andas e direi quem tu és”. Já estamos cansados de ouvir falar que nossos presídios são escolas do crime. Quem entre lá sai mais entendido do crime.
O ambiente, conquanto não seja determinante no comportamento de alguém, pode, inelutavelmente, influenciar a conduta de uma pessoa.
Não foi à toa que, antes do povo de Deus entrar na Terra Prometida, Canaã, o Senhor Deus mandou seu povo destruir todos os moradores daquela terra, chamados cananeus, e não fazer qualquer tipo de aliança com eles, proibindo, inclusive, o casamento do povo de Deus com os cananeus. Mas por que isso? Deus não foi radical? Não! Os cananeus eram depravados, imorais, idólatras, homossexuais. Para se ter uma ideia, os cananeus tinham relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, com animais; adoravam vários deuses; nos cultos sacrificavam crianças e praticavam relações sexuais nos cultos; era uma verdadeira orgia. De modo que influenciariam o povo de Deus fazendo-os desviar do Senhor. O povo do Senhor, ao ver os cananeus, faria o mesmo que eles. Leia estes textos: Nm 33.50-56; Dt 7.1-6; Lv 18.1-4, 22-30.
Logo, o que acontece nas festinhas de hoje não é novidade. Só alterou-se o ritmo e os instrumentos musicais, mas o pecado é o mesmo. Os cananeus não frequentavam baile funk, não pulavam carnaval, mas o pecado era o mesmo de sempre: prostituição, embriaguez, etc.
O próprio Josué, que foi o líder e sucessor de Moisés, reiterou as advertências de Moisés, descritas nos versículos anteriores, pelo que relembrou e advertiu o povo de Deus a não se misturar com os habitantes de Canaã.
Após a morte de Josué e de sua geração, o povo de Deus não obedeceu ao Senhor, de modo que seguiram os costumes dos seus vizinhos (Jz 1.27-36; 2.7-12; 10.6-7). O povo de Deus não expulsou todos os moradores de Canaã; estes, por sua vez, influenciaram o povo de Deus. O povo de Deus, que deveria ser santo, e se abster dos pecados cometidos pelos cananeus, sucumbiram-se e fizeram o mesmo que os cananeus.
Consequentemente, o Senhor Deus castigou seu povo.
Em virtude desse perigo, a saber, do povo de Deus imitar os pecadores, há vários conselhos e mandamentos nas Escrituras Sagradas advertindo sobre a companhia dos pecadores: Pv 22.5,24,25; 4.14,15; 1.15; 2.11-15; 13.20. A propósito, o primeiro salmo já enfatiza a necessidade premente de manter certa distância dos pecadores (Sl 1.1). Em função disso, o salmista desejava a companhia dos santos de Deus, preferia estar na casa de Deus a habitar com os pecadores (Sl 26.4,5; 84.2,10; 119.63,79,115).
Todos os textos bíblicos citados revelam a vontade de Deus para nós. Ainda nos dias de hoje, nosso Senhor também se preocupa com o lugar que frequentamos, com a amizade que temos. Por que a vontade do Senhor é que sejamos santos como ele é santo (1Pe 1.15,16; Lv 11.44; 1Tes 4.7).
Dificilmente alguém irá a uma danceteria, pulará carnaval, curtirá a balada, divertindo-se com temor, reverência, amor e santidade ao Senhor. O ambiente de uma danceteria ou de uma festa de carnaval não agrada ao Senhor Deus, e certamente Cristo Jesus não deseja que seus filhos estejam nesses lugares. Se muitos pais – que são pecadores – não gostariam que seus filhos estivessem nesses ambientes, quanto mais nosso Pai Celestial que é santo, puro e perfeito?
Esses ambientes possuem vários fatores que podem influenciar um filho de Deus a se afastar do Senhor. O ambiente é totalmente diabólico, maligno e depravado. As músicas são excessivamente altas, provocam euforia e muitas vezes apelam para a sensualidade, agressividade, imoralidade, etc. A iluminação favorece isso, por causa do ambiente escuro com luzes coloridas. Nas festas carnavalescas de rua o lema é muita bebida, pouca roupa, e sexo sem compromisso.
O que se vê num ambiente desses é casais de namorados quase fazendo sexo explícito, uso de todo tipo de drogas, desde as ilícitas, como cocaína, maconha, e outras drogas sintéticas, à base de pílulas, até drogas lícitas como bebidas e cigarro.
No decorrer da festa não é raro ver rixas e brigas, socos e pontapés, seguranças segurando pessoas pelo pescoço, outros caídos ao chão por causa da embriaguez, etc.
No final da festa então... As desgraças aumentam. Pessoas dirigem em completo estado de embriaguez provocando acidentes e mortes, outros vão aos motéis se prostituírem, terem um prazer momentâneo, sem compromisso, visando satisfazer apenas suas necessidades físicas, o que é pecado aos olhos do Senhor, que criou o sexo para ser desfrutado após o casamento entre um homem e uma mulher. Outros nem chegam em casa, ou vão para os hospitais ou para o cemitério.
Isso é apenas um resumo sucinto do que ocorre nesses lugares.
Diante de tudo isso, pergunto: esse tipo de lugar é oportuno para um servo do Senhor Deus frequentar? É um lugar saudável e bom para um filho de Deus?
Com efeito, um servo de Deus que frequenta esse tipo de ambiente, mais cedo ou mais tarde se afastará do Senhor. A pressão dos colegas, do ambiente é fortíssima, e uma hora ele sucumbirá.
Assim sendo, os conselhos e mandamentos descritos na Palavra do Senhor são aplicáveis a esse caso. O cristão comprometido com o Senhor deve manter-se afastado desse tipo de ambiente a fim de que não seja tentado a fazer o que se faz nesses ambientes.
Certamente, se você deixar de ir nesses lugares não perderá nada, pelo contrário, ganhará a plena comunhão e vida na presença do Senhor, o que lhe trará uma alegria extraordinariamente mais prazerosa e gloriosa, impossível de ser recebida numa danceteria, baile funk ou festa de carnaval. Alegre-se no Senhor, indo à casa de Deus! Aleluia! (Sl 84.1-4). Deseje estar na Casa do Senhor. Este é o seu desejo. Onde deseja estar no fim de semana? Eu já escolhi onde quero estar!
“Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do Senhor” Sl 122.1

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Crítica Textual

Análise Crítica Textual dos primeiros capítulos de Juízes

Consideração sobre a LXX
A LXX tende a discordar mais do TM que outras versões. Antes de descartar incontinenti a fidedignidade da LXX em relação ao TM, creio que é possível que a LXX tenha se baseado num texto cuja tradição não foi preservada pelo TM, mas que poderia fazer parte do original.
Infelizmente, à míngua de outros testemunhos, e para não basear o trabalho crítico em meras inferências, trabalharei com o princípio in dubio pro TM. Porquanto será mais objetivo, salvo raríssimas exceções devidamente fundamentadas.
Assim sendo, à medida que o testemunho da LXX for isolado, preponderará o TM.

Jz. 1.1a
O editor da BHS aponta a existência de um problema crítico no tocante ao nome do falecido. O TM afirma que o falecido é Josué, ao passo que a nota de rodapé da BHS sugere que seja Moisés, visto que em 2.6 Josué ainda estava vivo. Logo, depreende-se, então que Josué não tinha morrido, mas outra pessoa, e esta deve ser Moisés.
No entanto, tal inferência não tem qualquer apoio crítico, visto que nenhum manuscrito ou versão do texto hebraico traz o nome de Moisés como a pessoa falecida.
Destarte, o “problema crítico” não passa de mera inferência do editor, pelo que não há qualquer evidência objetiva em sentido contrário.
O editor evocou um aparente problema interno. À míngua de qualquer prova em contrário, é pertinente harmonizar o texto. E isso pode ser feito inelutavelmente. Basta admitir que não há uma sequência cronológica no capítulo um e dois, mas apenas um propósito, a saber, de demonstrar que as conquistas, mesmo na época de Josué, não foram efetivadas consoante a ordem do Senhor, qual seja, de exterminar todos os habitantes de Canaã, sem fazer qualquer aliança com eles.

Jz 1.10a
Mais uma vez o problema decorre não dos testemunhos externos, mas do testemunho interno, sendo evocado pela BHS somente, haja vista a menção em Js 15.13 de que Calebe expulsou os três filhos de Anaque, Sesai, Aimã e Talmai, ao passo que em Jz 1.10 refere-se a Judá.
Mais uma vez, a harmonização do texto é pertinente, em detrimento da evocação da contradição entre os textos.
Basta admitir inelutavelmente que Calebe recebeu o apoio da tribo de Judá, de forma que está correto mencionar tanto um como outro. A propósito, em Jz 1.20 está escrito que Calebe expulsou os três filhos de Anaque.

Jz 1.10b
Somente a LXX traz um acréscimo após a palavra Hebron: καὶ ἐξη̂λθεν (aor, ativo, inf.) Χεβρων ἐξ ἐναντίας
Essa versão afirma: “e vinha Hebron do lado oposto”, cujo sentido transmite a idéia de que Hebron ofereceu alguma resistência à tribo de Judá.
No entanto, o acréscimo da LXX não deve preponderar sobre o TM, visto que é um testemunho isolado sem um único apoio.
Ademais, um dos cânones clássicos da crítica textual afirma ser preferível o texto mais curto em vez do mais longo, visto que, via de regra, o copista tem a tendência de fazer acréscimos. Esse cânone deve ser aplicado ao caso vertente.
Porventura o tradutor quis florear o texto ou elucidá-lo, acrescentando que houve alguma resistência por parte dos habitantes de Hebron.

Jz 1.10c
A LXX altera o nome anterior de Hebron, que era Quiriate-Arba (קִרְיַת אַרְבַּע ), para Kariatharboksefer (Καριαθαρβοξεφερ ), pelo que transliterou de forma unificada as palavras Quiriate e Arba acrescentando a palavra Sefer.
Sobre a unificação das palavras para formar um único nome, a Vulgata também traduz assim. Todavia, o acréscimo da LXX pôde ter decorrido de uma confusão com o outro nome de Debir, que é Quiriate-Sefer (קִרְיַת־סֵפֶר ).
Destarte, o copista poderia ter visualizado a palavra Quiria-Arba e também Quiriate-Sefer, e cometido uma confusão entre ambas, o que resultou em Quiriate-Arba-Sefer.

Jz 1.10d
Por fim, o editor da BHS sugere que o verbo ferir (נכה ) está no singular em vez do plural, de modo a concordar com o verbo partir que está no singular. Não obstante o aparente erro de concordância, não há qualquer evidência textual que apóie a sugestão do editor. Esse equívoco não passa de um mero erro acidental.

Jz 1.11a
A leitura original da LXX e sem revisão acrescenta o verbo subir logo após o verbo partir. O acréscimo pode ser explicado com base no texto paralelo de Js 15.15 que menciona tal acréscimo.
No entanto, trata-se de uma evidência isolada sem apoio nas próprias revisões da LXX. Talvez o tradutor fizesse o acréscimo com base em Js 15.15, aproveitando a tradução do mesmo texto.
Jz 1.11b
A LXX traduz o nome Quiriate-Sefer por “Cidade dos Livros” (Πόλις γραμμάτων ). A Vulgata translitera e em seguida traduz o nome da cidade.
A seu turno, o códice vaticano minúsculo da LXX segue a Vulgata, transliterando o nome da cidade e em seguida traduzindo.
Nesses casos trata-se de uma opção do tradutor no sentido de elucidar o texto original, representado aqui pelo TM.
A versão árabe troca o substantivo pelo particípio, seguindo o texto paralelo de Js 15.15. Talvez, o tradutor tivesse substituído o vocábulo com base em Js 15.15, aproveitando a tradução do mesmo texto.


Jz 1.12a
Após o nome da famigerada cidade Quiriate-Sefer, a LXX traduz o nome da cidade. A Vulgata evita essa redundância.
Em ambos os casos trata-se de uma opção do tradutor no sentido de elucidar o texto original, representado aqui pelo TM.

Jz 1.13a
A expressão “mais novo que ele” não aparece no texto paralelo de Js 15.17. Entretanto, isso não afeta a veracidade do texto de Jz 1.13.

Jz 1.14a
A LXX afirma que ele insistiu com ela, ao invés de ela insistiu com ele. De modo que a mudança está apenas no prefixo i em vez do que consta no TM (h ) e, consequentemente, alteração no sufixo feminino em vez de masculino.
Em Js 15.18 há semelhante problema crítico.
A divergência pôde ter originado numa cópia danificada usada pelo tradutor da LXX, de modo que resultou nesse equívoco. Nem todas versões da Vulgata seguem a LXX.
Uma vez que não há consenso na Vulgata, e nenhuma outra evidência é plausível optar pelo TM. Ademais, o verbo anterior “vir” é um infinitivo feminino, de sorte que transmite a idéia de que ela foi até ele e perguntou a ele.

Jz 1.14b
Conforme o TM, a palavra campo é precedida de artigo definido. No entanto, a leitura original da LXX e sem revisão omite o artigo, possivelmente com base no texto de Js 15.18. Talvez o tradutor omitiu com base no texto paralelo, aproveitando a tradução do mesmo.

Jz 1.14c
Por derradeiro, após o verbo descer, a LXX acrescenta a seguinte expressão: “e murmurava e gritava”, cujo sentido denota que a esposa de Otniel desceu do jumento fazendo um escândalo perante o pai a fim de impressioná-lo. Com efeito, o acréscimo faz sentido, porque logo após descer do jumento, Calebe pergunta-lhe o que deseja. A pergunta per se não faria sentido a menos que Calebe ouvisse alguma reclamação de sua filha.
No entanto, o acréscimo da LXX não deve preponderar sobre o TM, visto que é um testemunho isolado sem um único apoio.
Ademais, um dos cânones clássicos da crítica textual afirma ser preferível o texto mais curto em vez do texto mais longo, visto que, via de regra, o copista tem a tendência de fazer acréscimos. Esse cânone deve ser aplicado ao caso vertente.
Porventura o tradutor quis florear o texto ou elucidá-lo, de modo que o acréscimo apenas auxiliou a compreensão da pergunta de Calebe a sua filha.

Jz 1.15a
A versão grega de Áquila traduz a palavra fontes no singular. Em Js 15.19 há um problema crítico, pelo que a LXX, a Peshita e fragmentos de códices hebraicos da Guenizá também usam o singular.
Não obstante a plausível evidência crítica contra o TM em Js 15.19, em Jz 1.15, a versão grega de Áquila é um testemunho isolado, de sorte não deve prevalecer sobre os demais. Talvez o tradutor traduzisse no singular com base no texto paralelo, aproveitando a tradução do mesmo., ou então cometesse um equívoco na leitura do texto original.
A LXX fez uma confusão, pelo que substituiu a palavra fontes por preço ou resgate. Tal substituição deriva de um equívoco na visualização da palavra ou de cópia deteriorada, visto que a palavra preço é semelhante ao estado construto feminino da palavra fonte ou região.

Jz 1.15b
A LXX acrescenta após o nome próprio Calebe, a expressão “conforme o coração dela”. O próprio editor da BHS sugere que se trata possivelmente de uma inserção, sendo o caso de uma haplografia, que significa erro de cópia que é resultado de uma omissão acidental de letras ou de palavras.
A palavra Calebe é bem próxima da expressão, basta acrescentar o sufixo feminino e alterar ligeiramente as vogais que se obtém o acréscimo da LXX.
Dessa forma, a haplografia poderia estar no TM. Convém remeter às considerações iniciais acerca da LXX, cuja conclusão é in dubio pro TM.

Jz 1.15c
Por fim o editor remete o trecho “fontes superiores e fontes de inferiores” ao problema crítico que há no texto paralelo Js 15.19.
Todavia, no texto em comento não há o aludido problema.

Jz 1.16a
O editor sugere que a palavra queneus deve ser lida como em 4.11. É verdade que a falta do artigo poderia implicar indefinição do substantivo. Com efeito, deve ser lida dessa maneira, embora não se possa considerar uma falha grosseira no texto original, mas um mero erro acidental.

Jz 1.16b
A leitura original da LXX e sem revisão subtrai a expressão “Judá” que qualifica a palavra “deserto”, talvez porque estivesse apagada da cópia do texto hebraico. Ou ainda porque o tradutor entendeu que era uma redundância. Entretanto, revisões posteriores sanaram essa omissão.

Jz 1.16c
Segundo o editor, a expressão “que está ao sul de Arade”, a qual explica a localização do deserto de Judá, é uma glossa ou nota explicativa. E estava apagada do texto original.
Não há apoio crítico à sugestão do editor.

Jz 1.16d
Antes da palavra Arade a leitura original da LXX e sem revisão acrescenta a expressão ἐπὶ καταβάσεως que significa “em direção à descida de Arade”. As demais revisões da LXX corrigiram o acréscimo que teve origem provavelmente pela confusão com a expressão “em o deserto” cuja grafia hebraica é semelhante ao acréscimo.

Jz 1.16e
A leitura do final desse versículo é truncada, porquanto não é identificado o povo que habitou junto com os filhos de Judá e os filhos do queneu naquela região, de forma que o editor sugere que o texto está corrompido. Assim sugere a seguinte leitura: “Os amalequitas foram e habitaram com o povo.
O texto grego original da LXX substitui os verbos “foi” e “habitou” pelo verbo “habitou”. Talvez o tradutor entendesse que o verbo ir era uma redundância. A vulgata também evita esse hebraísmo “ir e habitar”, traduzindo somente a palavra habitar.
Todavia, o TM deve prevalecer.
Por fim, antes dos verbos citados o texto grego da LXX da tradição das Catenae junto com a Vetus Latina adicionam a palavra Amaleque, denotando que Amaleque habitou naquela região.
Uma vez que outras traduções, inclusive dentro da própria LXX, não trazem esse acréscimo, é mister ficar com o TM.
Esse acréscimo pode ser uma explicação do tradutor, uma vez que havia amalequitas naquela região e provavelmente eles também habitaram com os filhos de Judá e os filhos do queneu.

Jz 1.17a
O texto grego da LXX da tradição das Catenae e o texto grego do Códice Vaticano juntamente com o 2 manuscritos hebraicos medievais redigiram o verbo “feriram” no singular. Não obstante o erro de concordância, poderia ser que essa tradição estivesse em consonância com o original, até porque o TM comete esse equívoco. Ou então poderia dizer que o TM estaria errado, conforme sugeriu o editor em Jz 1.10.
Seja o que for, perfilho o TM, uma vez que dentro da própria LXX há divergência.
Mais um problema de concordância surge no verbo “chamou”, porquanto pelo contexto a idéia é que Judá e Simeão nomearam o local, no entanto, o verbo encontra-se no singular no TM, ao passo que no texto original da LXX está no plural.
Ainda assim, a despeito do erro, faço a opção pelo TM.

Jz 1.18a
A LXX afirma que Judá não herdou Gaza, Asquelon e Ecron e seus respectivos territórios. No entanto, o versículo seguinte ressalva que a expulsão não foi total.
A Vulgata segue o TM. Logo, o TM deve prevalecer.
Talvez o tradutor da LXX quisesse elucidar que Judá não herdou definitiva e completamente aqueles territórios embora tivesse tomado aquelas cidades.
Mesmo o TM deixa implícito que a ocupação não foi completa.

Jz 1.18b
Fragmentos de códices hebraicos da Guenizá não incluem a conjunção “e” na partícula acusativa que acompanha a palavra Asquelon. Isso pode ter ocorrido por um erro acidental do copista ou problema no próprio manuscrito.

Jz 1.19a
Alguns relevantes testemunhos acrescentam o verbo hL¥K¡I (qal, 3cp) antes do verbo לְהוֹרִישׁ (infinitivo do hifil) , de forma que a tradução seria “não conseguiram desapossar” em vez de simplesmente não expulsou.
Eis os testemunhos: manuscrito hebraico medieval, leitura marginal de manuscrito hebraico original, LXX, Vulgata e Targum.
Perfilho o acréscimo em detrimento do TM, visto que o texto paralelo de Js 15.63 contém a inserção. E, por certo, a inserção faz sentido, visto que o infinitivo carece do verbo acrescentado por questão de sintática e para elucidar a leitura tornando-a escorreita.
Assim sendo, a tradição do TM perpetuou uma omissão acidental cometida pelo copista.
À medida que a LXX, Vulgata e outros testemunhos hebraicos divergirem do TM, o caso deve ser ponderado com mais cuidado, de modo que o TM poderá não prevalecer, com ocorreu no caso vertente.

Jz 1.20a
O editor da BHS entende que várias palavras foram excluídas desse versículo, haja vista a inserção de outras palavras pela LXX e outras versões e o texto de Js 11.21 que afirma que Josué havia destruído totalmente os enaquins.
Não há nenhum problema em harmonizar o texto de forma que a destruição dos enaquins perpetrada por Josué tenha ocorrido com o auxílio de Calebe, ou houvesse a sobrevivência inexpressiva e oculta dos três filhos de Enaque, exterminados, posteriormente, por Calebe.
A Vulgata concorda totalmente com o TM e a LXX parcialmente, de forma que o TM deve prevalecer.

Jz 1.20b, c
A LXX adiciona antes da expressão “filhos de Enaque” a palavra “cidades”, de forma a culminar na expressão “três cidades dos filhos de Enaque”.
No entanto, tal acréscimo é isolado, e foi inserido pelo tradutor com vistas a florear o texto ou até mesmo decorreu de um equívoco visual, pelo que o tradutor visualizou a palavra “cidades” em outros versículos da mesma página e inseriu-o.
Além desse acréscimo, o códice alexandrino da LXX e o texto grego segundo a recensão de Orígenes bem como a Vetus Latina acrescentam antes da palavra “cidades” a expressão καὶ ἐξη̂ρεν ἐκει̂θεν τὰς τρει̂ς que pode ser traduzida assim “e tomou dali as três cidades”.
A Códice Veronense e o texto grego da LXX segundo a recensão de Luciano, a versão Saídica, a versão Síria e a versão árabe acrescentam após a palavra Enaque, a expressão “e tomou dali os três filhos de Enaque”.
Visto que a Vetus Latina é geralmente dependente da LXX, seu valor crítico dever ser ponderado com cautela.
Não obstante o testemunho de outras versões, perfilho o TM porquanto até entre a LXX há divergências, ao passo que a Vulgata segue o TM.
Talvez os tradutores tivessem cometido equívocos visuais.

Jz 1.21a
Segundo os massoretas orientais o particípio ativo do verbo habitar deve ser lido no plural em vez do singular, de forma que seria traduzido assim: os jebuseus que habitam em Jerusalém, em vez de “os jubuseus que habita em Jerusalém.
Com o Qerê oriental concordam vários manuscritos hebraicos. O texto paralelo de Js 15.63 também corrobora o qerê oriental.
A Vulgata e a LXX corroboram o TM.
Se se entender que houve um erro gramatical do copista, o qerê oriental deve preponderar. Se se entender que o autor inspirado deixou acidentalmente a marca de sua natureza humana e falha sem que tal erro maculasse a inspiração e inerrância da Palavra, visto que a inerrância não implica gramática escorreita, como também matemática, astronomia, ciência, mas que os autores não estiveram livres dos conceitos e equívocos acidentais e toleráveis no seu tempo, o TM há de prevalecer.
Não tenho dificuldade de aceitar um texto inspirado e inerrante que contenha eventualmente equívocos gramaticais e dados e registros sem precisão cronológica, científica, astronômica.
Assim sendo, perfilho o TM.

Jz 1.21b
Em vez dos filhos de Benjamim, o editor sugere os filhos de Judá, a fim de harmonizar o texto com Js 15.63.
À míngua de qualquer evidência textual, prefiro harmonizar o texto de outra maneira, a saber, admitindo que Judá também participou daquela empreitada, de forma que a menção a um quanto ao outro é correta.

Jz 1.22a
Vários manuscritos hebraicos bem como a LXX alteram a expressão casa de José por filhos de José.
Não obstante a possibilidade, haja vista que os versículos anteriores registram a expressão “filhos”, o TM deve prevalecer, visto que o testemunho em sentido contrário não tão expressivo. De forma que a LXX e os manuscritos hebraicos cometeram equívoco visual ou mental, até porque a grafia das palavras são semelhantes e em versículos anteriores a expressão que aparece é filhos.

Jz 1.26a
Poucos manuscritos hebraicos medievais incluem antes da palavra terra a preposição L£@, seguida do maquef, outros manuscritos a preposição ¥L .
A despeito da ausência da preposição no TM, a leitura está subentendida no próprio texto.
Destarte, os testemunhos contrários ao TM são insuficientes para serem verídicos, conquanto a LXX e a Vulgata coloquem uma preposição.
É possível que o copista dos manuscritos divergentes tenham uma mente mais helenizada, tendo a necessidade de escrever a preposição.

Jz 1.26b
A LXX acrescenta após o verbo edificou o advérbio ali. Trata-se de uma adição isolada e sem apoio de outros testemunhos, de forma que não deve preponderar sobre o TM.
Talvez, algum manuscrito hebraico tivesse acrescido o advérbio correspondente.

Jz 1.26c
Poucos manuscritos hebraicos medievais e fragmentos de códices hebraicos da Guenizá acrescentam a partícula acusativa ,
Faço remissão ao comentário de Jz 1.26a.

Jz 1.26d
A LXX altera o nome da cidade Luz para Louza. A Vulgata traduz para Luzam.
Conquanto a transliteração não se coadune com o texto hebraico, não há razões para se crer que o TM esteja errado. Porventura naquele tempo a transliteração do nome daquela cidade seguia aquela forma.

Jz 1.27a
Muitos manuscritos hebraicos medievais e quase todas as versões acompanham o querê, ou seja, o particípio ativo do verbo habitar deve ser lido no plural em vez do singular.
Não obstante o comentário retro de Jz 1.21a, creio que a variante deve ser preferida em relação ao TM. Porque nesse caso, as evidências textuais pendem para a variante, uma vez que há relevantes versões e muitos manuscritos hebraicos que corroboram a variante.
Assim sendo, nesse texto o erro visual é dos copistas do TM. Não é possível que o autor sagrado tenha cometido o mesmo erro duas vezes. Aí é demais...

Livro de Reis

Livro de Reis

Introdução
Os livros dos Reis formavam um só livro no Antigo Testamento Hebraico, ao passo que a LXX dividiu-os em dois volumes. Somente a partir de 1448 a Bíblia Hebraica começou a dividir ambos os livros.

Autor
Segundo a tradição judaica, Jeremias escreveu os livros de Reis. Todavia, o próprio título dos livros tão-somente traz a inscrição “Reis”, não sendo mencionado ainda que indiretamente o nome do autor, de modo que a autoria permanece anônima.
A autoria de Jeremias não é ilógica, visto que há muitas referências a profetas e profecias cumpridas. Os capítulos finais de Reis são semelhantes ao capítulo 52 de Jeremias. Isso pode tanto indicar uma mesma autoria, ou no mínimo o uso de fontes semelhantes. A propósito, não obstante a característica narrativa do livro, a Bíblia Hebraica incluiu-o na seção dos livros proféticos.

Data dos livros
A ala mais conservadora e menos recente defende que o livro foi escrito ou concluído não muito tempo depois da libertação de Jeoaquim o qual estava preso na Babilônia. Assim, Jeoaquim foi liberto no ano de 562 a.C, ao passo que a conclusão do livro sucedeu no ano de 550 a.C.
Contudo, uma ala crítica defende que houve duas composições distintas. Uma na época do livro de Deuteronômio, ou seja, nos dias da reforma de Josias, e outra posteriormente.
Outra ala moderada acredita que o livro foi escrito durante o exílio. Nesse período o povo teria mais condições de refletir sobre as causas que culminaram no cativeiro.
Não há motivos para não se crer que o livro de Reis fora escrito à medida que os eventos sucedessem. Até porque havia intensa atividade literária profética naqueles períodos, mormente na época dos profetas escritores.
Aliás, os livros usam várias fontes, o que atesta que havia registros ou crônicas dos acontecimentos.

Características e temas
O autor desses livros utilizou outras fontes históricas (11.41; 14.19.29).
O livro expressa as idéias e ensinos registrados no livro de Deuteronômio. Nesse livro observa-se o efeito prático da lei de Moisés na vida do povo. As palavras de Moisés insertas no livro de Deuteronômio, sobretudo no capítulo 28, se cumprem cabalmente: as bênçãos atingem a plenitude no reinado de Salomão, ao passo que as maldições nos cativeiros assírico e babilônico. O livro foi intitulado de “História Deuternomista”, uma vez que esse livro, junto com os livros de Josué e Samuel, desenvolve a teologia de Deuteronômio no que diz respeito às bênçãos e maldições inerentes à prática da Lei.
Esses livros cobrem um período de 410 anos, de forma que inicia com os últimos dias de Davi (971 a.C.) e termina com a restauração de Joaquim (561 a.C.).
O livro de Reis pode ser dividido em três partes:

PARTE 1
A MONARQUIA UNIDA (1Rs 1-11)
O reinado de Salomão abriu caminho para a convulsão nacional à medida que ele passou gradualmente da sabedoria e lealdade à aliança para a insensatez e a apostasia
PARTE 2
A MONARQUIA DIVIDIDA
A história da teocracia dividida realça o poder destrutivo da apostasia em Israel e a intervenção misericordiosa de Yahaweh em favor de Judá, por amor a Davi (1Rs 12-2Rs 17)
PARTE 3
O REINO ÚNICO DE JUDÁ
A história da monarquia independente de Judá retrata um declínio espiritual constante, interrompido por dois reavivamentos que conseguem apenas retardar a avalanche de disciplina pactual contra a nação (18.1-25.26)

A narrativa do livro aborda basicamente:

1- O apogeu da nação judaica
Após a morte de Davi, seu filho assume o trono, e torna-se o rei mais poderoso daquela região. Nessa época as fronteiras de Israel alargaram-se sobremaneira, de modo que cumpriu-se cabalmente a promessa de Deus realizada a Abraão. Essa época é considerada como a Idade de Ouro da história dos judeus. Os outros impérios daquela época estavam fracos.
Salomão escolheu a sabedoria. Por conseguinte, adquiriu poder, riqueza e honra. Salomão edificou o Templo, considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. No entanto, ele envolveu-se com várias mulheres, por conta de motivos políticos.

2- O reino dividido (930 a.C)
O reino unido durou 120 anos: Saul, 40 anos; Davi 40 anos; Salomão, 40 anos. As dez tribos formaram o reino do Norte, ao passo que Judá e Benjamim o reino do Sul.

3- O reino do norte entregando-se à idolatria

4- O reino do Sul resistindo à idolatria por mais tempo

5- O ministério dos profetas
Elias combateu fortemente o culto a Baal. Tal deus pertencia ao povo cananeu, o qual acreditava que exercia influência sobre a agricultura, chuva e fertilidade. Os adoradores de Baal sacrificavam os infantes. Seguidamente, Eliseu, como discípulo de Elias, deu seqüência ao seu ministério.

6- O cativeiro de Israel pela Assíria (722 a.C), cuja capital era Nínive
Os profetas dessa época foram: Oséias, Isaías e Miquéias e Amós.
A Assíria utilizava a deportação como método de conquista dos outros povos, isso desintegrava a nação conquistada, de modo que enfraquecia-se, dificultando as rebeliões. A Assíria era uma nação cruel, pelo que esfolavam vivos seus prisioneiros, ou cortavam-lhes as mãos, os pés, o nariz, as orelhas, ou lhes vazavam os olhos, ou lhes arrancavam a língua, faziam montes de caveiras humanas, com vista à intimidação, e inspiração do terror.

7- O cativeiro de Judá pela Babilônia em três ocasiões
Profetizaram nesse período os profetas: Jeremias, Ezequiel, Daniel, Naum, Sofonias.
*605 a.C: Nabucodonosor subjugou Jeoaquim, levou os tesouros do templo, a descendência real, inclusive Daniel, para a Babilônia.
*597 a.C: Nabucodonosor voltou e levou o restante dos tesouros e o rei Jeoaquim, e 10.000 dos príncipes, oficiais e homens principais, todos cativos à Babilônia.
*587 a.C: Novamente os babilônios retornaram e incendiaram Jerusalém, quebraram seus muros, vazaram os olhos do rei Zedequias e levaram-no algemado para Babilônia.
Assim terminou o reino terrestre de Davi. Entretanto, há uma nota de esperança no último capítulo do livro, ao relatar a preservação e libertação do descendente real de Davi, o rei Jeoaquim.
Infere-se um conteúdo messiânico no livro, visto que a monarquia e o estado independe de Israel chegou ao fim, restando somente a restauração do reino davídico e da independência da nação pelo Messias.
Com efeito, o propósito do autor é teológico, não obstante os relatos sejam históricos e fidedignos. Por exemplo, do ponto de vista do historiador secular, Onri foi o rei do norte mais importante, entretanto o autor dedica pouca atenção à sua época, ao passo que períodos muito menores receberam maior ênfase, como o ministério do profeta Elias e Eliseu.
A Aliança de Deus, cujo mediador foi Moisés, encaixa-se bem como tema central. A teoria da Lei de Moisés pôde ser vista na prática. Há um constante contraste entre o reino fiel a Deus e o reino idólatra, com as respectivas bênçãos e maldições.
O livro também explica às gerações sobrevivente ao exílio e às vindouras a causa do exílio. Em suma, todas as desgraças advieram da desobediência do povo que não observou fielmente a Lei de Deus dada a Moisés, e registrada no Pentateuco, sobretudo nos dez mandamentos e no capítulo 28 de Deuteronômio.

CRONOLOGIA DOS REIS DE ISRAEL E JUDÁ


REIS DE ISRAEL E DE JUDÁ
(ATÉ A QUEDA DE SAMARIA)
Judá Data Israel
A Casa de Davi 931 A Casa de Jeroboão
Roboão 931-913: Filho de Salomão. No início de seu reinado as tribos do Norte se separaram das do Sul para formar um reino independente Divisão do reino de Salomão
Sisaque ataca a Palestina Jeroboão I 931-910: Primeiro rei das tribos do Norte depois da divisão do reino de Salomão
920
910 Nadabe 910-909
Abias 913-911 900 A Casa de Baasa
Asa 911-870 890 Baasa 909-886: Assasinou a Nadabe e usurpou o trono
Elá 886-885
Zinri 885
880 A Casa de Omri
Onri 885-874: Foi um dos reis mais importantes de Israel. Fortaleceu o reino através de alianças e conquistas e fez de Samaria a capital de Israel
Josafá 870-848: Judá voltou a ser próspera durante seu reinado, e houve paz entre Israel e Judá 870
[Elias]
860 Acabe 874-853: Tentou unificar os elementos israelitas e os cananeus pondo em perigo o concerto com Deus
Jeorão 848-841 [Eliseu] Acazias 853-852
850 Jorão 852-841
Acazias 841: Foi assassinado por Jeú, de Israel 840 A Casa de Jeú
Atalia 841-835: Usurpou o poder quando seu filho Acazias foi assassinado Jeú 841-814: Foi originalmente um oficial do exército; assassinou Jorão e erradicou o culto a Baal em Israel
Joás 835-796: Filho de Atalia. Subiu ao poder quando Atalia foi deposta por um complô palaciano 830
820
810 Jeoacaz 814-798
Jeoás 798-783
Amazias 796-781 800
790
Uzias ou Azarias 781-740: Reinou durante um tempo de paz com Israel. Fortaleceu e extendeu seu reino 780
770 Jeroboão II 783-743: Em seu governo Israel gozou de prosperidade
Jotão 740-736 [Amós] Zacarias 743: Reinou por 6 meses
760
750 Salum 743: Reinou por 1 mês
[Oséias] A Casa de Menaém
740 Menaém 743-738
Acaz 736-717: Pediu ajuda aos assírios para fazer frente à Síria e Israel. Este movimento fez Judá ser dependente da Assíria [Isaías]
[Queda de Damasco, 732]
730
720
[Queda de Samaria, 721] Pecaías 738-737
Peca 737-732

Oséias 732-724: Último rei de Israel. Em 721 Samaria caiu diante da Assíria e houve uma deportação em massa
Sociedade Bíblica do Brasil. 2002; 2005. Bíblia de Estudo Almeida - Revista e Corrigida . Sociedade Bíblica do Brasil

A cronologia apresentada pelo livro possui a priori algumas aparentes discrepâncias, que, após uma ponderação acurada, é totalmente dirimida. Considerando que o autor do livro dos reis computa um ano incompleto como completo, que o período de um reino é arredondado, e que há casos de co-regências (2Re 15.5), as aparentes discrepâncias são facilmente harmonizadas.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Bodas de Caná

Perguntas:
1) Esse milagre foi realmente o primeiro?
2) Qual é o significado do v. 4?
3) Os discípulos realmente creram em Jesus como o Cristo naquele momento?
4) Esse milagre tem algum significado espiritual?

Contexto:
O texto analisado vem após o contato de Jesus com seus primeiros discípulos. Jesus já havia afirmado nesse diálogo com Natanael que Coisas maiores seriam observadas e que daquele momento em diante o céu estaria aberto e os anjos de Deus subiriam e desceriam sobre o filho do homem (1.50-51).
Em seguida, o evangelista fala sobre a expulsão dos mercadores do templo de Jerusalém, e que após a realização de outros milagres ali, muitos que viram creram.

Exposição
O milagre da transformação da água em vinho dá início às coisas maiores preditas por Jesus. Conquanto esse milagre esteja ausente dos demais evangelhos, não há razões para duvidar de sua autenticidade, até porque os evangelhos não objetivam ser historicamente precisos e cronológicos, antes porém, visam transmitir a mensagem de que Jesus é o Cristo segundo o escopo peculiar de cada evangelista e tendo em vista o destinatário da mensagem.
O versículo 11 pode transmitir a idéia de que ali em Caná Jesus fez o principal milagre. Até porque a palavra grega traduzida por primeiro ou início é ἀρχὴν , e pode ser traduzida por principal. Uma variante textual, cujo principal testemunho é o P66 em sua leitura original e P75, utiliza a palavra grega proto que significa primeiro. Diante dessa variante bem antiga e da possibilidade de se traduzir a palavra arche como primeiro, é coerente entender a explicação do evangelista como o primeiro milagre realizado por Jesus.
Diante da falta de vinho, Maria interpela Jesus. É possível que Maria estivesse servindo às pessoas e, notando a falta de vinho, comunicasse a Jesus, haja vista que nessas festas somente os homens participavam da formalidade cerimonial. Por que Maria foi falar com Jesus? Se o texto realmente denota que esse milagre foi o primeiro – e é isso que o texto indica - então Maria dirigiu-se até Jesus crendo que Ele poderia fazer algo, em função de sua experiência com o nascimento miraculoso de Jesus. Ou seja, a fé de Maria em Jesus baseava-se no milagre do seu nascimento, ocorrido há 30 anos atrás!
A resposta de Jesus é intrigante. O que Jesus quis dizer com: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada minha hora.”
A primeira frase é um hebraísmo, ou seja, uma expressão hebraica que remonta os tempos de Davi. Em 2Sm 16.10 e 19.22. Nessas duas passagens Davi usa essa expressão para discordar de Abisai, filho de Zeruia. E denota que quem fala tem absoluta independência daquele para quem é dito, de forma que não há relação obrigação ou subordinação. Davi não estava obrigado a seguir os conselhos de Abisai, porquanto não era subordinado a este.
Da mesma forma, o texto denota que Jesus não tinha essa relação de subordinação para com sua mãe. O fato de Ele chamar sua mãe de mulher, denota a absoluta independência de Jesus em relação ao pedido de Maria.
Portanto, Jesus não estava obrigado a resolver aquele problema da falta de vinho, que certamente envergonharia o noivo e sua família, visto que as festas de casamento duravam dias, até uma semana, e não era bom que faltasse bebida aos convidados. O que Jesus estaria por fazer era resultado de sua livre e soberana graça.
A segunda expressão fala da hora de sua glorificação, a saber, sua morte e ressurreição. Isso é indicado por trechos paralelos no próprio evangelho (7.6, 30; 8.20; 12.23; 13.1). No entanto, há intérpretes que defendem que esse trecho fala do momento de sua revelação messiânica.
Com efeito, Jesus quis fazer alusão a sua missão precípua: morrer na cruz. Visto ser esse evento o principal e imprescindível para redimir a humanidade. Mas por que Jesus teria suscitado essa questão? Não estaria fora de contexto? Não. Os discípulos do Senhor não poderiam “esperar de Cristo somente nessa vida”, não deveriam esperar que Jesus realizasse milagres e prodígios até os 120 anos. A missão de Cristo era dar sua vida em favor dos Seus. E Jesus quis ressaltar isso. Mesmo falando constantemente que ele haveria de padecer, os discípulos não entendiam, pelo contrário, Pedro até tentou dissuadir Jesus a abandonar essa missão.
Após a resposta, Maria fala para os serventes obedecerem Jesus. Não obstante a negação de Jesus, ela ainda confiava que Jesus atenderia seu pedido, não porque fosse obrigado a fazê-lo, mas por amor e graça.
Os serventes obedecem ao Senhor. Enchem os vasos de água e ainda levam ao encarregado da festa. Era um ato de não pouca fé: levar água para o encarregado experimentar. Mas a surpresa foi a reação do encarregado: provou o melhor vinho! Em seguida repreendeu o esposo por ter guardado o melhor vinho, pois era costume servir o melhor e depois o pior. Mas o esposo fez diferente. Ele não, Jesus fez a diferença.
Esse milagre serviu para manifestar a glória do Senhor. A palavra glória doxa traduz o hebraico kabod que significa honra, majestade, importância. E realmente esse milagre manifestou a grandeza e majestade de Jesus. Os profetas incluíram o vinho como símbolo das bênçãos que o Senhor traria no grande dia messiânico, de julgamento e restauração. Esse milagre serve é um sinal de que a era messiânica está raiando; um antegozo das bênçãos futuras, do banquete que será preparado por Jesus. Os convidados experimentaram o melhor vinho feito por Jesus. Mas algo muito melhor está sendo preparado pelo esposo aos seus convidados, a saber, Jesus à Igreja.
Consequentemente, os discípulos creram em Jesus. Nós sabemos que essa fé não era a fé salvífica e plena. Pois tal fé só foi exercida após a ressurreição do Senhor e aparição aos discípulos. Isso se coaduna com a explicação de João quando afirma que muitos creram em Jesus mas Jesus não confiava neles (1.23-24) e quando muitos discípulos abandonaram Jesus (6.66). Essa fé ainda era incipiente e estava em formação, sendo aperfeiçoada mais tarde.
Mas esse belíssimo sinal serviu apenas para manifestar a glória de Jesus? O evangelista não teceu maiores digressões acerca desse sinal, com fez com os demais. Talvez Jesus não tenha falado nada mesmo. Todavia, todos que leem esse trecho não hesitarão em dizer que esse sinal ensina a transformação que Jesus faz em nossas vidas.
E por certo, esse sinal também demonstra isto: que Jesus tem o poder de transformar algo em outra coisa que segundo as leis da química tem uma fórmula totalmente distinta e salutar.
O texto seguinte relata que Jesus expulsou os mercadores do templo e disse que derrubaria aquele templo e em três dias o reergueria. Isso era uma alusão ao seu corpo. Sua morte colocaria fim ao sistema religioso da aliança feita no Sinai por intermédio de Moisés onde houve o derramamento de sangue de um animal e inauguraria a nova aliança consumada no Calvário, por meio de Jesus e por seu sangue.
Isso pode ser um indicativo de que João quisesse depreender desse sinal a transformação que Jesus faria em relação ao sistema religioso até então vigente. Tal interpretação se coaduna com a declaração de Jesus nos sinópticos sobre o vinho novo referindo-se à nova aliança e, também, sobre o recipiente em que o vinho estava: vasos usados para purificação dos judeus.
A marca distintiva dessa nova aliança é a regeneração, a transformação que o Espírito Santo faz na pessoa (Ez 36.25-27; Jr 31.31-33), que se manifestada pelo novo nascimento. Assim sendo, uma pessoa que nasce de novo na verdade é uma pessoa que sofreu uma transformação semelhante à da água para o vinho.
Aqueles recipientes usados para purificação estavam ali para proporcionar purificação aos judeus, que eram considerados impuros pelo simples fato de tocarem pessoas impuras (cf. o livro de Levítico). Mas, pelo poder de Cristo, uma pessoa é totalmente transformada sem qualquer necessidade de rituais externos, que apenas simbolizavam a completa purificação realizada por Cristo, não havendo mais necessidade de tais rituais.
Não poucos católicos usam esse texto para justificar a intercessão de Maria, dizendo que se pedir para a Mãe o Filho atenderá. No entanto, o texto não fala em hipótese alguma sobre a intercessão de Maria em favor de alguém. Primeiro porque Maria estava viva ainda, e segundo porque o próprio Jesus demonstra em sua declaração a ausência de subordinação em relação a Maria. Jesus está subordinado ao Pai, e só devemos pedir ao Filho para que o Pai atenda-nos (14.13,14; 16.23,24).

Cristologia: Jesus é o Cristo. O milagre manifesta a majestade de Jesus, seu poder e soberania sobre as leis da natureza.
Soteriologia: Os sinais serviram para estimular a fé dos discípulos. Mas hoje, devemos crer sem ver; embora às vezes Deus possa usar sinais para trazer pessoas a Cristo. Outrossim, esse milagre descreve a transformação que Jesus pode fazer no coração de uma pessoa.
Escatologia: Esse sinal indica a alteração que estaria por vir ao sistema religioso judaico. Algo totalmente novo surgiria.
Mariologia: O texto não pode jamais ser usado como prova de que Maria intercede, uma vez que não há qualquer indicação de que ela possa fazer isso após sua morte, e tampouco o texto quer ensinar sobre a intercessão de santos ou da própria Maria.

Esboço:
1) Jesus transformou a água em vinho

2) Jesus transformou a religião de Deus em outra totalmente nova

3) Jesus transformou a vida de pessoas em novas criaturas

Jesus transforma a vida de quem crer

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Dom de Línguas

Introdução
Todos hão de concordar que o dom de línguas não cessou, sendo reativado. Como assim, se há os cessacionistas, ou seja, aqueles que creem que não há mais tal dom? Na verdade, todos hão de concordar que o que não cessou é o debate acerca desse dom, que ainda vem suscitando acaloradas discussões no seio da igreja. Não como outrora, em que o fenômeno era tido como manifestação demoníaca, igrejas se dividiam oficialmente por causa desse fenômeno, irmãos eram excluídos, igrejas não possuíam comunhão com irmãos que defendessem ou tivessem a experiência com esse dom.
Graças a Deus, o debate hodierno se tornou mais acadêmico e amistoso, de modo que as diferenças não têm sido mais o motivo preponderante para rachar igrejas, excluir irmãos, não ter comunhão entre igrejas. Por exemplo, é comum constatar uma convivência pacífica e harmoniosa entre os opostos, os defensores do dom, de agora em diante denominado continuistas e os cessacionistas. No meio de igrejas reformadas, tradicionais históricas e até cessacionistas, é possível identificar defensores desse dom.
Mas a questão ainda não deixa de trazer polêmica. Não pretendo tecer maiores digressões sobre o assunto e tampouco ser exaustivo, até porque há excelentes materiais em português que abordam o assunto com muita propriedade. Apenas tenciono expressar minha convicção da maneira que entendo ser bíblica, a fim de oferecer uma resposta àqueles que me interpelarem, mas pautando sempre pelo amor e profundo respeito pelos que defendem o contrário, sempre considerando-os como irmãos amados.
A propósito, os dons devem servir para edificar o Corpo de Cristo, e jamais para dividi-lo.

Breve retrospecto histórico
O debate sobre o dom de línguas é recente, não obstante ter havido manifestações desse dom no decorrer da história. Prova disso é que nenhuma confissão histórica antiga, antes de 1900, tratou expressamente sobre o assunto, conquanto tenha havido movimentos e pessoas que defendessem esse dom.
O eminente historiador da igreja, Eusébio de Cesaréia, que viveu durante os anos de 260-340 d.C aproximadamente, relata casos de pessoas que falaram em línguas.
No ano de 1830, Edward Irving também encabeçou um movimento que teve experiências com o dom de línguas.
Nos dias do ministério de Moody, famoso evangelista norte-americano, há registro desse dom:

“Um momento de glossalália em Londres ocorreu em 1875 quando Dwight L. Moody pregou numa reunião da A.C.M. no Victoria Hall. Depois de falar a um pequeno grupo de homens num culto da tarde, Moody deixou o grupo “no fogo” com aqueles jovens “falando em línguas” e “profetizando”. Num certo sentido Moody poderia ser classificado como um pregador pré-pentecostal, embora as línguas na podem ser ditas como algo que caracterizou os seus cultos de avivamento. Este evento, entretanto, indica que a glossalália às vezes acompanhava a sua pregação” (Synan, The Holiness Petencostal Movement, p. 89-90 in WHITE, John. Quando o Espírito vem com poder. 1ª ed., São Paulo: ABU, 1998, p. 89-90).

Sem embargo da veracidade histórica do registro acima, constata-se que o fenômeno já ocorria antes do século XX.
Mas foi a partir do século XX, mais precisamente no ano de 1901, que a questão ganhou notoriedade. Primeiro com um pequeno grupo numa Escola Bíblica em Topeka, no Kansas, Estados Unidos, liderado por Charles Fox Parhan. Nesse grupo houve experiências com o dom de línguas. Depois, com as pregações de William J. Seymour, no galpão da Rua Azuza, o assunto se tornou público e espalhou-se pelos quatros cantos da terra. No ano de 1906 o próprio Seymour teve experiência com o dom de línguas. Esse movimento foi cunhado de movimento pentecostal, uma alusão ao dia de Pentecostes. A propósito, no ano de 2006 se comemorou o centenário do movimento pentecostal.
Não demorou muito, e esse fenômeno chegou ao solo brasileiro por meio de dois missionários suecos batistas que residiam nos Estados Unidos, Daniel Berg e Gunnar Vingren. Eles chegaram a Belém do Pará no ano de 1910. Não foram aceitos na denominação batista, de modo que em 1911 fundaram a maior denominação do Brasil, a Igreja Evangélica Assembléias de Deus, que completará em 2011 seu centenário.
O fenômeno das línguas não ficou adstrito somente aos adeptos do movimento pentecostal. Não são poucos os casos de pastores tradicionais históricos, inclusive reformados, que tiveram experiência pessoal com esse fenômeno, ou ao menos reconheceram-no como genuíno.
A propósito, John White relata um interessante caso em que uma pessoa que não cria no dom de línguas, pelo contrário até o refutava, mesmo assim teve a experiência com esse dom:
"Firme oponente a línguas e a cura, Carol Wimber havia pregado contra esses pontos em grupos de mulheres por toda a região em que moravam. Ela ainda tinha sido o instrumento pelo qual muitas pessoas que criam em tais coisas foram removidas da igreja.
Numa noite ela sonhava que estava apresentando a sua mensagem de sete pontos contra as línguas, quando acordou depois do sexto ponto e viu-se a si própria fazendo exatamente o que ela havia condenado em suas pregações: ela estava falando em línguas. [...]
Apresso-me a dizer que se o sonho dela seguido de seu despertamento quando se viu falando em línguas, proveio do diabo, então nós todos estamos numa triste situação. Se o diabo pode vir a qualquer hora e assim afligir dessa maneira a ardente oposição de um crente às línguas (ou a qualquer outra coisa), então que os céus nos ajudem!" (WHITE, John. Quando o Espírito vem com poder. 1ª ed., São Paulo: ABU, 1998, p. 182 e 188)

Continuidade do dom de línguas
Não vejo base bíblica para dizer que qualquer dom do Espírito Santo registrado em 1Cor 12 tenha desaparecido completa e definitivamente, com exceção do dom de apóstolos e profetas em sentido estrito, referindo-se aos doze e demais pessoas pertencentes ao círculo apostólico que estiveram incumbidos de implantar a igreja e receber as revelações necessárias para sua consolidação, consubstanciadas no NT. Essa ressalva resguarda a autoridade suprema e indelegável das Escrituras Sagradas. Caso contrário, as revelações seriam contínuas, o que implicaria reduzir ou até suplantar a revelação do NT.
Qualquer leitor imparcial das Escrituras não encontraria base para defender o desaparecimento dos demais dons. A propósito, é oportuno citar a ilação de Jack Deere:

"Se você trancasse um crente recém-convertido em uma sala, com uma Bíblia, e lhe dissesse para estudar o que as Escrituras dizem sobre curas e milagres, ele jamais sairia daquela sala como um cessacionista." (DEERE, Jack. Surpreendido pelo poder do Espírito Santo.2ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p.57)

Um texto comumente usado para vindicar o cessacionismo é 1 Cor 13.10, em que Paulo fala que quando o perfeito vier o que é em parte será aniquilado, de forma que as línguas e profecias desaparecerão; há quem defenda que o perfeito refere-se ao fechamento da revelação do NT ou à maturidade da igreja, que já foi atingida; dessa maneira, os dons desapareceriam porque o perfeito já veio (NT ou maturidade da igreja).
Isso não passa de inferência, sem qualquer respaldo bíblico. Em nenhum momento as Escrituras depreendem a cessação dons em virtude da maturidade da igreja ou do fechamento do cânon. Seria estranho imaginar que com a morte do último apóstolo uma trombeta do céu soou sinalizando o fim dos dons. É crível crer que a inspiração para escrever livros sagrados desapareceu com a morte do último apóstolo, até porque a inspiração não é classificada como um dom espiritual, mas como uma capacidade especialíssima e excepcional com um fim singular: conceder ao povo eleito uma regra de fé infalível. Como dito, isso resguarda a autoridade das Escrituras. Mas em relação aos dons, é difícil imaginar que os dons tenham desaparecido instantânea ou gradativamente. Não é possível inferir isso a partir das Escrituras.
Caso a mente apostólica inspirada pelo Espírito Santo cogitasse nesse desaparecimento jamais estimularia o povo eleito a buscar o que era temporário. Ou ao menos haveria alguma ressalva de que em breve isso desapareceria.
Pelo contrário, o desaparecimento dos dons está condicionado à volta de Cristo. De forma que, enquanto Cristo não voltar, os dons estarão disponíveis à igreja. Se em algum momento anterior à volta de Cristo os dons desapareceriam, naturalmente o apóstolo seria o primeiro a declarar isso, a fim de desencorajar a igreja a buscar algo que desapareceria em algumas décadas depois.
Até o comentário da Bíblia de Estudo de Genebra de 1Cor 13.10, que segue a tradição reformada presbiteriana, admite que o “contexto (especialmente o v. 12) sugere fortemente que Paulo está se referindo aqui à segunda vinda de Cristo como evento final do plano divino da redenção e da revelação” (Bíblia de Estudo de Genebra, São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 1362).
O próprio João Calvino, um dos maiores exegetas da história da Igreja, defende que o perfeito se refere ao dia do juízo final, embora o mesmo não cresse na continuidade dos dons e tivesse outra concepção acerca do dom de línguas:

Mas, quando tal perfeição virá? Em verdade, ela começa na morte, quando nos despirmos das inúmeras fraquezas juntamente com o corpo; portem, não será plenamente estabelecida até que chegue o dia do juízo final, como logo veremos. (CALVINO, João. 1 Coríntios. 2ª ed., São Bernardo do Campo, Edições Parakletos, 2003, p. 406 e 407)

Agora, quero consignar que, conquanto eu creia que os dons não cessaram, reconheço que houve uma relativa suspensão de alguns dons, o que é um fato. Não vejo hoje em dia, ao menos na circunscrição onde resido, manifestações de curas como houve na primeva história da igreja, registrada em Atos dos Apóstolos. Ainda assim, creio que Deus poderá a qualquer momento conceder tais dons à sua igreja, conforme lhe aprouver. E mais, pode haver em algum lugar desse mundo pessoas que tenham recebido algum dom miraculoso de Deus. Se Deus é soberano, nada o impedirá de irromper as paredes da incredulidade e despejar Seu estrondoso e bendito poder, curando cegos, surdos, paralíticos, ressuscitando mortos.
Da mesma maneira que não ousarei determinar a Deus que faça milagres, muito menos determinarei a Ele que não faça. Ele é soberano!
Se um dia eu crer que não haja mais dom de curar, por exemplo, não orarei mais para que Deus cure alguém. Ora, se Deus não pode mais dar o dom de cura a alguém, por que poderia curar alguém? Acho uma incongruência orar por cura e não crer no dom da cura. É assaz estranho: Deus pode curar, mas não pode dar o dom de cura. Ora eu nunca orarei pedindo a Deus que inspire a escrever um livro sagrado, porque creio que tal inspiração cessou.
O dom de línguas, como qualquer outro de 1Cor 12, ainda permanece em vigor, embora haja relativa suspensão de alguns e absoluta cessação de outros, conforme dito alhures.

Línguas extáticas, angelicais ou humanas, inteligíveis ou ininteligíveis
À medida que o assunto se aprofunda, a polêmica se agrava. A Bíblia, especialmente 1Cor, refere-se a que tipo de línguas?
Muitos acreditam que o texto trata de idiomas humanos. Se não fosse 1Cor 13.1, a questão poderia ser pacificada com ressalvas. Ninguém esteve com os 120 no dia de Pentecostes, ou participou de um culto na igreja de Corinto para dizer o que eram essas línguas.
Dependemos da interpretação do texto bíblico. Lucas registra em At 2 que no dia de Petencostes muitas pessoas, de diversas regiões, ouviam os discípulos falarem no próprio idioma deles.
Esse texto pode denotar que as línguas faladas pelos discípulos eram idiomas humanos ainda existentes e que os discípulos falaram em um idioma conhecido dos ouvintes. No entanto, não é possível fechar a questão. Em At 2 poderia ter ocorrido a interpretação de línguas ou um milagre de audição. Ou seja, os discípulos falavam em vários idiomas desconhecidos dos ouvintes, no entanto, por um milagre ou dom de interpretação, cada pessoa conseguia ouvir em sua própria língua.
Essa segunda hipótese me parece mais plausível. Pois se os discípulos falassem ao mesmo tempo quatro ou cinco idiomas, os ouvintes diriam que ouviam em sua própria língua bem como em outras também. Mas, não foi isso que registrou Lucas, cada um ouvia na sua própria língua, e não em outro idioma também. O texto bíblico não declara que os discípulos falaram no idioma dos árabes, cretenses, etc., mas que os ouvintes ouviam-nos falar das grandezas de Deus em seus respectivos idiomas.
O texto bíblico fala que os discípulos falavam em línguas, cuja termo grego é γλωσσα, ao passo que os ouvintes escutaram os discípulos falarem em seu próprio dialeto, cuja palavra grega é διαλεκτος (At 2.8).
Os demais textos de Atos (19.6; 10.46) apenas mencionam que houve o fenômeno de falar em línguas, mas não se fez outro comentário. No entanto, em todos os trechos bíblicos que abordam esse dom, em nenhum se registra a palavra grega διαλεκτος. Isso pode indicar que o dom de línguas não é a mesma coisa que um dialeto humano. Entretanto, não é prudente estabelecer tal distinção com base nisso, pois a diferença de palavras pode ser também irrelevante, sendo usada de forma livre.
O texto de 1Cor 13. 1 e 14 são mais explícitos sobre o tema; ainda assim, o debate é tenso.
Muitos defendem que o texto trata de idiomas humanos. João Calvino seguiu essa tese. Contudo, o próprio comentário da Bíblia de Estudo de Genebra sobre 1Cor 14.2, de linha presbiteriana reformada, admite que: “Este versículo (cf. o v. 14) descreve o dom de línguas de uma maneira que parece incoerente com o dom de falar em línguas estrangeiras, mencionado em At 2.4-11 (embora alguns creiam que o milagre, no dia de Pentecostes, tenha sido um milagre de audição).
Com efeito, o apóstolo Paulo abre um precedente para as línguas angelicais. 1Cor 13.1 não é uma hipérbole – o apóstolo não exagerou nas afirmações. É totalmente possível ter o dom de profetizar sem amor. A propósito, na própria igreja de Corinto havia o dom de profetizar concomitante com a falta de amor. É possível distribuir toda a fortuna para sustentar os pobres ou entregar o corpo para ser queimado sem que haja amor.
Destarte, também alguém pode falar a língua dos homens e a língua dos anjos sem amor. Não há nada no texto que obstaculize Deus de conceder a alguém a capacidade de falar a língua dos anjos.
Quero dizer com isso que alguém pode falar a língua dos anjos pela capacitação do Espírito Santo. Ainda assim, não quero dizer com isso que o dom de línguas seja necessariamente a língua dos anjos. O texto não faz essa identificação, de modo que não passa de mera conjectura afirmar que o dom de línguas seja a língua dos anjos. Pode ser, como também pode não ser.
A frase no original não exclui a possibilidade real de alguém falar a língua dos anjos. A conjunção ἐὰν com o verbo subjuntivo versa sobre uma possibilidade real e concreta. Nesse sentido, Rienecker elucida que “ἐὰν com subjuntivo introduz uma condição que pode ser possível “suponde” que” (RIENECKER, Fritz et al. Chave linguística do NT grego. São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 319).
Assim sendo, a fim de não ir além do texto bíblico, reconheço a possibilidade de alguém falar a língua dos anjos, de forma que essa capacidade pode – é uma possibilidade e inferência, não obrigatoriedade – estar atrelada ao dom de línguas; não afirmo, contudo, que o dom de línguas é a capacidade de alguém falar a língua dos anjos, pois o texto bíblico não permite tal ilação.
Uma coisa todos concordam: que o dom de línguas é um idioma humano. A grande questão é: quem fala em línguas sabe o que está falando?
1Cor 14.2,14,13,14 revela claramente que o que possui o dom de línguas não sabe o que está falando, visto que somente o espírito dessa pessoa se comunica com Deus, ao passo que o entendimento fica infrutífero (14). Ora, se a pessoa precisa orar para interpretar o idioma falado, é por que certamente esse idioma não é normalmente falado ou compreendido, não sendo um dialeto passível de ser traduzido por alguém mediante o estudo do idioma. Se assim fosse, Paulo diria: aquele que ora em línguas, estude para que possa interpretá-las, ou chame um poliglota.
Com efeito, há um elemento enigmático e misterioso nesse idioma, que o distingue dos demais dialetos. Por isso acredito que é significativo a abstenção da palavra dialeto para se referir a esse dom. Somente a intervenção do Espírito Santo pode elucidar o significado desse idioma.
Enquanto a maldição de Babel pode ser relativamente revertida pelo estudo dos dialetos, a bênção do Pentecostes somente pode ser entendida pela intervenção do Espírito Santo que dá a interpretação das línguas.
Assim, o dom de línguas visa edificar a própria pessoa, de forma que a igreja só será edificada se houver interpretação. Somente a interpretação das línguas pode trazer a lume os mistérios falados pela pessoa. Por certo, quem fala em línguas fala mistérios. A palavra grega significa algo oculto que não pode ser compreendido pelo mero entendimento humano.
Por isso, tendo em vista a edificação do corpo, o benefício da coletividade em detrimento da individualidade, do benefício individual, Paulo prefere a profecia, exortando todos a buscarem o dom de profetizar; também exorta aqueles que falam em línguas a orarem para que possam interpretá-las, edificando o corpo.
Mesmo preferindo o dom de profetizar ou o dom de línguas seguido de interpretação, que edificaria toda a igreja, o apóstolo reconhece o benefício individual do dom de línguas, de forma que não proíbe o falar em línguas, de modo que exorta a igreja a não ser radical seguindo o extremo de impedi-lo. Pelo contrário, Paulo deseja que todos falem em línguas, pois isso traria edificação individual.
Com vistas a regulamentar o exercício do dom, o apóstolo só admite o falar em línguas numa reunião pública e aberta aos incrédulos se houver a interpretação. Não havendo, a pessoa deve falar consigo mesma e com Deus (28).
Agora, é importante frisar que nem todos possuem ou possuirão esse dom, conforme está bem claro em 1Cor 12.30. Outrossim, não se pode inferir que todos que receberem o batismo com o Espírito Santo falarão em línguas, porque o texto de Atos não visa estabelecer um padrão. Se objetivasse isso, então a conclusão óbvia seria que todos deveriam também profetizar (At 19.6). Ademais, o batismo com o Espírito Santo é um evento prometido a todos e que ocorre com a salvação, sendo concomitante com a fé genuína e verdadeira em Cristo Jesus. Não creio que essa promessa seja uma experiência pós-salvação e tampouco seja evidenciada pelo falar em línguas.

Conclusão
O dom de línguas ainda está em vigor, e consiste na habilidade recebida do Espírito Santo de falar em idiomas humanos desconhecidos para quem fala e ouve, a menos que, pelo dom do Espírito Santo da interpretação, seja interpretado, visto não ser um dialeto humano passível de interpretação pelo estudo. Há possibilidade de ser idioma dos anjos. Deve ser exercido no culto público somente se estiver acompanhado do dom da interpretação, caso contrário a pessoa deve falar consigo mesma e com Deus, sob pena de escandalizar os visitantes incrédulos. A igreja não deve proibir seu exercício.
Acima de tudo, o amor deve prevalecer. Não é à toa que no meio desse tema o apóstolo falou sobre o caminho mais excelente: o amor. O amor deve nortear o assunto. Não foi debalde que o Espírito Santo colocou 1Cor 13 no meio da discussão. Se atentássemos para 1Cor 13 muitas divisões poderiam ser evitadas, e muitos irmãos poderiam congregar juntos, tanto o que fala em línguas, quanto o que não fala, contanto que o primeiro tratasse o segundo com amor e respeito, seguindo a ordem de falar somente se houver interpretação, e o segundo tratasse o primeiro com o mesmo amor e respeito, não proibindo-o de falar mediante interpretação.
O que não traz edificação e com certeza entristece o Espírito Santo é rotular ou classificar o que fala em línguas como endemonhiado, carnal, fraco, e o que não fala como incrédulo, sem o Espírito Santo.
Ambos devem se considerar irmãos em Cristo, sinceros, cheios do Espírito Santo, batizados no mesmo. No máximo um poderia considerar o outro como aquele irmãozinho fraco que merece todo respeito, por quem Cristo morreu, e pelo qual o Espírito Santo intercede, tendo o mesmo Pai, e que, segundo a vontade do Pai, receberá o esclarecimento no tempo oportuno, ao menos no céu!